"Como qualquer regionalista que inicia a sua caminhada neste movimento, Arlindo Esteves começou por interessar-se primeiramente pela satisfação das necessidades de progresso da terra que o viu nascer..."

Se recuarmos aos primórdios do movimento regionalista pampilhosense, até à época em que se sentiam na dureza da vida as dificuldades com que as populações do concelho se debatiam, sem ninguém que lhes desse ouvidos ou lhes prestasse atenção, encontramos o nome de António Augusto Esteves a integrar uma comissão destinada a promover a construção duma estrada que libertasse os fajaenses do isolamento de séculos e lhes abrisse as portas do mundo exterior.

(abro aqui um pequeno parêntese para assinalar que este dedicado fajaense, que foi também presidente da Junta de Freguesia de Fajão, faleceu no dia 25 de Maio de 1969, faz hoje precisamente 34 anos, o que não deixa de ser uma circunstância que confere a esta homenagem uma coincidência que a  valoriza)  

Foi desse pioneiro do movimento regionalista que Arlindo Esteves herdou o espírito de serviço em favor da comunidade que o havia de projectar como um dos maiores e mais esclarecidos vultos da história deste movimento social que tem o condão de nos aproximar uns dos outros e de nos manter fiéis às nossas raízes.  

Portador duma notável formação regionalista, imaginativa e de fortes convicções pessoais, o envolvimento de Arlindo Esteves neste ideal remonta a 1948, um tempo em que, por várias circunstâncias, era difícil andar no regionalismo. No meio de tantas carências e tão minguados recursos, solicitavam-se direitos como se se tratasse de favores, de chapéu na mão, e quase sempre a receptividade encontrada por parte do poder, a qualquer nível, era desencorajante, tantas vezes a revelar profunda insensibilidade para os problemas que os amarguravam.  

Mas as dificuldades e a escassez de meios aguçavam o engenho para inventar formas de angariação de recursos financeiros, enquanto que, por outro lado, o baixo nível escolar da colónia pampilhosense era colmatado por uma dedicação extraordinária e uma generosidade que chegava a ultrapassar a capacidade financeira de muitos dos heróicos obreiros do regionalismo.

Lembramos as festas nocturnas realizadas nesta casa e os problemas que frequentemente lhe estavam associados, os disputados leilões para recolha de fundos, num tempo em que os escudos se contavam até ao centavo e o dinheiro era sempre escasso para fazer face a tanta obra necessária nas nossas aldeias. Recordamos o entusiasmo de Arlindo Esteves na liderança desses leilões em que, pelo seu espírito de grande comunicador, fazia abrir carteiras e entrar nos modestos cofres das nossas colectividades muitos milhares de contos que se encontram investidos em inúmeras obras de valorização do nosso concelho.

Como qualquer regionalista que inicia a sua caminhada neste movimento, Arlindo Esteves começou por interessar-se primeiramente pela satisfação das necessidades de progresso da terra que o viu nascer -- a sua amada vila de Fajão -- mas em breve a sua acção extravasaria dos limites estreitos da povoação onde veio ao mundo para se alargar às aldeias e freguesias vizinhas, já que sempre entendeu o regionalismo como um amplo espaço de trabalho colectivo, contrário como era a bairrismos isolacionistas, circunscritos aos interesses dum pequeno povoado que procura resolver os seus problemas sem ter em conta a solidariedade com os vizinhos.

Assim o vemos a integrar por diversas ocasiões os corpos sociais da Liga Pró-Melhoramentos da Freguesia de Fajão, designadamente ao nível da presidência da direcção, sempre em postura construtiva e espírito aberto. Assim o encontramos como associado de dezenas de colectividades regionalistas do concelho, como dirigente de muitas delas, sempre com a mesma dedicação e entusiasmo que punha ao seviço da sua terra.  

Foi também na Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, esta sua segunda casa, onde consumiu muitos anos de vida, que desempenhou sucessivamente os cargos de secretário da Direcção (1964-1966), secretário da Assembleia-Geral (1968-1971), presidente da Direcção (1977-1980), vice-presidente da Assembleia-Geral (1982-1990) e presidente do Conselho Regional, dando no exercício de todos eles um forte impulso ao prestígio alcançado por esta velha e amada instituição.

E em reconhecimento da sua dedicação ao ideal regionalista, com reflexos no desenvolvimento do concelho, Arlindo Esteves viu, em 1986, a sua fotografia juntar-se às de outros pampilhosenses na decoração das paredes desta casa regional, e já antes, em 1974, havia sido proclamado em assembleia geral “sócio benemérito” desta instituição que, mais tarde, em 1983, lhe concederia o galardão de “mérito regionalista” . Também, como preito de gratidão pelos serviços prestados, muitas outras colectividades o distinguiram, homenageando-o ou atribuindo-lhe diplomas de sócio benemérito ou honorário.  

E recentemente, por ocasião da comemoração do feriado municipal do nosso concelho, uma data histórica em boa hora recuperada pelo executivo camarário, a Câmara Municipal, num preito de justiça e de reconhecimento do mérito de Arlindo Esteves na acção que desenvolveu ao serviço do concelho, decidiu perpetuar a sua memória, incluindo o seu nome na toponímia duma das novas artérias da vila.  

Na verdade, Arlindo Esteves foi um grande pampilhosense e um defensor estrénuo da causa regionalista. De trato fácil, mas sempre exigente consigo próprio, batalhador apaixonado pelas causas que considerava justas, sem transigências da ideia e da conduta regionalista, tinha do regionalismo uma visão abrangente, a sua opinião era escutada e inspirava confiança, tal o grau de conhecimentos que a sua experiência acumulara, a seriedade que punha na análise das questões, ou a sinceridade da sua postura na defesa intransigente dos princípios enformadores do ideal regionalista em toda a sua pureza e em plena observância das normas estatutárias.

E fez escola no regionalismo. Conversador fluente, de verbo fácil e voz vibrante e com a capacidade de trabalho e liderança que lhe era reconhecida, Arlindo Esteves tinha o raro dom de conquistar amigos e de alimentar a amizade, tinha o condão de nos levar a acompanhá-lo em qualquer iniciativa e, às tantas, quase sem disso nos darmos conta, víamo-nos envolvidos numa causa, interessados num projecto tendente a tornar mais agradável a vida das nossas comunidades serranas. Era assim Arlindo Esteves, um daqueles homens que nascem para servir, para ajudar os outros, com o único objectivo de imprimir uma marca positiva na sua vida.
Regionalista a tempo inteiro, sem horário de trabalho nem remuneração, Arlindo Esteves pagava para servir e sentia-se recompensado com a satisfação que lhe vinha da concretização de qualquer melhoramento que pudesse levar algum conforto e dignidade aos residentes nas nossas aldeias. Ele acreditava no futuro do concelho e no regionalismo como instrumento ao serviço do desenvolvimento mas, atento às mudanças que atravessam a sociedade e à evolução das mentalidades, já no Congresso Regionalista realizado na Pampilhosa em 1999, revelava a sua inquietação, ao afirmar que “está nas mãos de todos não deixar morrer o espírito do regionalismo e de todos lutarmos pelo futuro do concelho de Pampilhosa da Serra” pois “foram muitos os sacrifícios passados para dotarmos as nossas aldeias de condições mínimas para que nelas possamos passar momentos de lazer e de convívio”.

Assim foi, de facto. O regionalismo pampilhosense desempenhou um valioso papel no despertar do sentimento de solidariedade e na união de esforços no sentido do bem comum, transformou caminhos em estradas; fontes de chafurdo em fontanários; ruas lamacentas em calçadas; construíu pontes, escolas, capelas, recintos desportivos, centros de lazer e de convívio; participou em obras de abastecimento de água, de electricidade, de saneamento, de instalação de telefones; e num clima de cooperação institucional, colabora com as autarquias em tudo quanto tem a ver com o progresso das nossas aldeias e o bem-estar das suas gentes.

Arlindo Esteves, um dos obreiros mais comprometidos com todo este historial de progresso, representa a fibra e o carácter dos homens serranos, caldeados pelas dificuldades e por um natural desejo de evolução, que têm contribuído, ao longo dos anos e de forma decisiva, para a construção deste grande edifício que é o regionalismo. Pela sua postura como servidor deste ideal e dedicado cidadão pampilhosense, merece sem dúvida o tributo que aqui lhe prestamos, após a sua morte.  

Merecê-lo-ia em vida, na medida em que este singelo acto configura um gesto nobre que dignifica o regionalismo pampilhosense, mas a melhor forma de guardarmos a sua memória, talvez a homenagem que ele mais apreciaria, será a de não deixarmos morrer o movimento regionalista pampilhosense que tão devotadamente serviu, não esquecermos o seu exemplo de cidadão solidário, a sua jovialidade no relacionamento com todos nós, a sua dedicação à terra-mãe, e continuarmos a obra a que, através do regionalismo, dedicou toda a sua vida -- o progresso do nosso concelho.

É esse preito que lhe devemos, com muito orgulho pelos sucessos do passado, pelo regionalismo tradicional, o das obras e dos melhoramentos mas, numa sociedade em permanente mudança, atentos à necessidade de virar a página e iniciar um novo ciclo, o do regionalismo da informação e da cultura, aberto à inovação e à descoberta de novas causas suficientemente mobilizadoras das novas gerações e que, numa perspectiva de futuro, possam manter viva esta chama de amizade e preservar a memória e a identidade das nossas aldeias.

O propósito que aqui nos une tem um significado que vai muito para além da mera homenagem a um grande vulto do regionalismo pampilhosense, a um homem que dedicou muitos anos da sua vida ao desenvolvimento do concelho onde nasceu, pois o preito que aqui prestamos a Arlindo Esteves representa também a perpetuação do nome dum cidadão exemplar, dum homem bom que prezava a amizade, dum lutador incansável pela dignificação da vida das comunidades serranas, nunca esmorecendo na sua luta pela criação de condições de bem-estar na sua terra e em todo o nosso concelho.

Por tudo quanto fez no seio do regionalismo pampilhosense, ao longo de meio século e com uma constância admirável, Arlindo Esteves, com o seu nome gravado a letras de ouro, faz parte da galeria de honra dos servidores deste movimento social. Ele soube honrar a herança familiar que lhe foi transmitida pelo sangue, abraçou-a desde a juventude, viveu-a apaixonadamente pela vida fora, e só a abandonou no dia em que Deus determinou o fim do seu percurso terreno e se dignou chamá-lo à sua presença.

 Aníbal Pacheco

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