"Todos tentam realizar algo grandioso, sem reparar que a vida se compõe de coisas pequenas."  (Frank Clark)

Brás Gonçalves Pires, nasceu de uma família humilde de Dornelas do Zêzere concelho de Pampilhosa da Serra em 1902. Nesse dia 26 de Outubro, domingo, nascia o homem que porventura viria a ser um dos mais importantes suportes no campo da saúde na Freguesia de Dornelas do Zêzere e seus arredores. Foi também este homem que um dia sonhou o melhor para a sua aldeia, enquanto Presidente da Junta de Freguesia por vários períodos.
                                         
Nessa época, nas Serras da Pampilhosa, era frequente a falta de recursos das famílias que pouco tinham para o sustento dos seus, e a família de Brás Pires, não era excepção. Não é pois de estranhar, que aos 12 anos de idade já Brás Pires guardasse cabras e ovelhas, enquanto ajudava os pais na agricultura.

Em 1916 com apenas 14 anos de idade, inicia-se no nobre ofício da enfermagem. Tendo como mestre Alberto de Oliveira, durante dois anos assimilou os primeiros conhecimentos da profissão que um dia o havia de notabilizar na região.

Quando em 1918 morre o enfermeiro de Dornelas, António Joaquim, vitimado por uma epidemia de gripe, fica vago o lugar. Com o acordo do mestre António Fernandes Martins, cabe a Brás Pires preencher o lugar vago e assim continuar a exercer enfermagem em Dornelas do Zêzere, mesmo não tendo ainda terminado o curso. O trabalho com o mestre Martins durou 4 anos, ou seja, de 1918 a Setembro de 1922 quando concluiu o curso de enfermagem.

A sua vida privada não foi de modo algum um mar de rosas, homem tenaz e decidido, começa por viver em casa emprestada por seu tio António Baptista, até que 6 anos depois compra uma casa sua por 6 mil escudos ao seu tio João Vicente Isidoro.

Como todos os homens e mulheres da sua época, Brás Pires, sabia que sem agricultura dificilmente se podia sobreviver nas Serras, e foi com este espírito e à custa de muitos sacrifícios que adquiriu as primeiras terras. Mesmo para a agricultura era um homem muito avançado para a sua época. Terras pouco produtivas, mas estrategicamente situadas à beira do rio, foram transformadas em vinhas e campos de milho, fornecendo sustento à família, pois muitas vezes as pessoas que o Sr. Enfermeiro Brás tratava, nada tinham com que pagar.

Casou-se a 17 de Outubro de 1923 com Amália Dias Baptista de Carvalho de quem teve 8 filhos: Agostinho 1924, Lucília 1926, Silvino 1928, Horácio 1930, Miquelina 1933, Sílvia 1936, Viriato 1938 e Adriano 1945. Destes filhos teve 9 netos, Carlos Pacheco 1956, Maria Ercília 1957, Teresa Maria 1959, Rosaria da Conceição 1961, Brás Joaquim 1961, Tadeu Marcelo 1963, Ana Cristina 1964, Brás José e Filipe Pires 1978.

O início dos anos de 1930 não foram de forma alguma anos felizes para este serrano de dura tempera, no dia de Natal de 1932 morre o seu filho Silvino de apenas quatro anos de idade, para menos de duas semanas depois, a 6 de Janeiro, falecer o seu outro filho Horácio, de três anos. Um anormal surto de sarampo, trazia mágoa e dor ao homem que começava já a apanhar o gosto por aliviar o sofrimento alheio. Já o início do seu matrimónio com Dna. Amália de Carvalho, havia sido ensombrado pela morte prematura do seu primogénito de nome Agostinho, que faleceu com menos de um ano.

Mas nem o sofrimento familiar, nem as agruras da vida difícil daquela época, derrotaram Brás Gonçalves Pires. A semente que germinava no mais íntimo de si, impelia-o mais e mais na procura de formas de ajudar os seus conterrâneos, ou os desprotegidos das aldeias vizinhas.

Como enfermeiro trabalhou com os médicos Luís Tomás Barateiro, e António Afonso, delegados de saúde do Concelho de Pampilhosa da Serra na época. Nesse tempo, e durante largos anos, a sua casa era a enfermaria, a sala de consultas, e muitas vezes o consultório privado dos médicos referidos.

Não se pense que a sua actividade como enfermeiro se ficou apenas pela sua terra natal. Em todas as aldeias ao redor de Dornelas do Zêzere, o Senhor Brás, curou feridas, ajudou grávidas, e limpou muitas cabeças partidas. Dornelas, Maxial, Aldeia de S. Francisco, Seladinhas, Meãs, Póvoa da Raposeira, e muitas outras aldeias, usufruíram do altruísmo deste homem que viajava muitos dias inteiro apenas com o "farnel" que levava de casa para lhe servir de "dejua", o que hoje se pode chamar pequeno almoço. Como enfermeiro, o primeiro diplomado da região, adquiriu profundos conhecimentos médicos, chegando-se por vezes a circunstâncias em que era preferido pelos doentes em vez de um médico.  

Após o exercício de enfermagem, vinha o agricultor. Era de facto um homem multifacetado. Mais tarde, e mercê da enorme confiança que o povo depositava nele, abraçou a política, vindo a ser Presidente da Junta de Freguesia de Dornelas do Zêzere, cargo esse que exerceu durante 22 anos. Como se não bastasse, era ainda barbeiro, correspondente do Jornal o Século, e tinha largos conhecimentos de astronomia. Não admira pois, que fosse conhecido como o homem dos sete ofícios.

Depois de 25 de Abril de 1974, foi eleito Presidente da Junta de Freguesia de Dornelas do Zêzere, cargo que exerceu até Novembro de 1975, altura em que pediu a demissão devido ao agravamento do seu estado de saúde. Antes do 25 de Abril já havia ocupado a presidência da Junta por várias ocasiões. Segundo o Dr. Joaquim Eurico Anes Duarte Nogueira, no livro "Dornelas do Zêzere - Subsídios para uma Monografia", Brás Pires foi presidente da Junta nos períodos, 1942/1945, 1951/1959, e 1961/1963.


Enquanto Presidente da Junta de Freguesia, iniciou um longo processo que iria revolucionar a vida das gentes da sua aldeia. Nessa qualidade, Brás Pires, resolveu o problema do abastecimento de água a Dornelas do Zêzere, foi também no seu mandato que se fizeram novas estradas, se abriram caminhos, e executou a obra mais emblemática na aldeia de Dornelas, os "pontões" sobre o rio Zêzere. Os velhos pontões, que também foram feitos na aldeia de Pisão, e na aldeia de Adurão, não eram nem mais nem menos que umas simples placas de cimento com alguns metros de comprido, suportadas por pilares em cimento armado, que permitiam a passagem de um automóvel para o outro lado do rio mesmo quando o rio apresentava grande caudal, nos casos de Pisão e Adurão foi a passagem da ribeira que se tornou urgente resolver. Os pontões de Dornelas, representavam um encurtar fantástico da distância que separava a aldeia, do Concelho do Fundão". No pico do Inverno, quando a água era muita nem mesmo os velhos "pontões" ficavam a salvo da fúria do rio. Nessa altura sim, podia avaliar-se a importância de uma obra tão simples, mas tão necessária para o dia a dia das gentes daquela zona.

A luz eléctrica, iluminou Dornelas do Zêzere pela sua mão, o lavadouro público, a estrada Dornelas do Zêzere Aldeia de São Francisco de Assis, o caminho do cemitério, o alargamento do mesmo, e foi também um dos iniciadores do processo da actual ponte de Dornelas do Zêzere, muito antes de 25 de Abril de 1974. A sua obra, marcou uma época de tal forma, que nos arredores da freguesia de Dornelas do Zêzere, não haverá família que não lembre o homem que um dia sonhou com o melhor para a sua terra. Nas Serras da Pampilhosa, por entre matagais e aldeias encravadas nos vales e montes, este homem muitas vezes solitário, cuidava, apoiava, e sempre  aconselhava todos quantos necessitavam de atenção. Mães felizes com os filhos no regaço, feridas limpas quando o pior se esperava, sorrisos de crianças que pouco mais tinham que um pião, serviam muitas e muitas vezes de paga às horas infindáveis ao serviço dos outros.

Dele o filho Adriano guarda com orgulho uma história de simplicidade e coragem. "o Eng. Horácio de Moura foi alguém que sempre apoiou meu pai quando se tratava de obras em Dornelas, quando meu pai era Presidente da Junta e por isso quis visitá-lo em Lisboa. Aproveitou o facto de ir para casa dos filhos em Alverca, para um dia decidir procurar o Eng. Horácio de Moura, que na época era, se não estou em erro, Secretário de Estado das Obras Públicas.
Ao chegar lá, dirigiu-se à sua secretária dizendo que gostaria de falar com
o Senhor Secretário de Estado, mas a senhora incrédula de tanto "provincianismo" lá lhe foi tentando explicar que não era possível, pois tinha que marcar uma audiência. Meu pai com o ar mais tranquilo do mundo disse à secretária:
  - Diga-lhe que está aqui fora o Brás de Dornelas! - A senhora respondeu que
fosse quem fosse não poderia entrar.
  O Eng. Horácio de Moura dentro gabinete terá a conversa abriu a portas dizendo:
  - Mas deixe entrar esse homem, entre amigo Brás! - Ao que a secretária
exclamou:
  - Deve ser gente grande para entrar assim!"

Esta simples história, com mais ou menos colorido, representa bem a audácia, a determinação e a força interior do homem que um dia resolveu entregar a sua vida a tratar de doentes nos confins das Serras da Pampilhosa. Mais tarde e por sua iniciativa o que antes, segundo alguns, era o " cu de judas ", passou de facto a fazer parte do todo nacional.

Hoje passados tantos anos, é irónico pensar, que aquilo que Brás Gonçalves Pires dava às populações, é neste mundo capitalista, negado aos seus filhos e netos.

Após uma vida árdua, cheia de dedicação à sua terra e suas gentes, abandonou toda a sua actividade passando a maior parte do fim da sua vida junto dos filhos e netos.

O dia 18 de Abril de 1982, um domingo como tantos outros, ficou marcado pela certeza que o velho lutador não empunharia por muito mais tempo a bengala que tomara o lugar da seringa ou da caneta. Após ter sido levado pelo Dr. Eugénio Cebola ao Hospital do Fundão, foi-lhe diagnosticada uma angina de peito. Mesmo assim, no regresso à aldeia, apesar de muito debilitado, fez questão de ver as obras da nova ponte sobre o Rio Zêzere, a menina dos seus olhos, o objectivo de uma vida. Ao apreciar o seu sonho a caminho da realidade terá exclamado quase como um último fôlego, "Agora sim já posso morrer descansado".

Foi levado para casa da filha Miquelina Pacheco onde se sentou no sofá morrendo nesse momento, calmo e tranquilo. O corpo do velho guerreiro deixou-se vencer pela fadiga e pelo tempo, mas no seu rosto podia adivinhar-se o semblante de um homem feliz e realizado.

Brás Gonçalves Pires, temos a certeza, estará para sempre no coração dos filhos e netos bem como no coração de todos os seus familiares e dos muitos e muitos amigos que facilmente angariou toda a vida.

NOTA FINAL

Cabe aqui o agradecimento público aos netos Filipe Pires, Tadeu Marcelo e ao filho Adriano, por toda a informação que facultaram, bem como as imagens que gentilmente cederam. Bem haja aos dois por acreditarem no nosso simples trabalho, que é a todos os títulos um trabalho incompleto, pois acerca de Brás Gonçalves Pires muito haverá ainda para contar.

Filipe Pires / Luís Gonçalves

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