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Algures na Serra do Açor, perdida no meio da bruma matinal consequência do fenómeno de evaporação do Rio Zêzere, espraiada numa encosta sobranceira ao rio, com vista privilegiada para o mesmo, podemos encontrar esta bela aldeia também conhecida como “Varandas do Zêzere”.

Quando a neblina levanta temos uma vista ímpar sobre a albufeira da barragem do Cabril onde o Zêzere corre mansa e calmamente, parece reflectir os olhos azuis de um amor perdido no tempo e no espaço.

Foi esta aldeia que me viu nascer há mais de meio século, lembro-me dos tempos de infância, quando das férias grandes, do entusiasmo, da libertação e da odisseia que era a viagem de Lisboa para a minha aldeia. A saída de Santa Apolónia num comboio com locomotiva a vapor, que resfolgava todo o trajecto como se arfasse de cansaço, com as carruagens bastante desconfortáveis com bancos de madeira e com umas redes de tecido por cima das janelas onde se colocavam as bagagens menos volumosas ainda fazem parte do meu imaginário. Apesar do desconforto, e de a cada junção dos carris sentirmos os solavancos era sempre com uma excitação muito grande que a viagem nocturna era feita. Havia normalmente uma animação muito grande nas gentes que demandavam as suas terras natais. A atmosfera reinante na carruagem era sempre de uma grande animação, ora com dichotes de uns, umas gaitadas de beiços ou até uns tocadores de guitarra, viola ou harmónio.

A chegada a Castelo Branco de madrugada, sempre com um frio de fazer tremer o dente não esmorecia o entusiasmo e a alegria de ir a caminho de um paraíso e de uma liberdade de que não se usufruía na grande urbe. A viagem de camioneta de carreira até á Pampilhosa da Serra era um tormento, através da estrada sinuosa e estreita. Não raras vezes o rodado da camioneta saía parcialmente da estrada, sendo uma aventura esta viagem. O enjoo era sempre um parceiro de viagem, a cor rosada da face transformava-se num verde próprio de quem fica mareado. Foi uma situação com que tive de conviver durante quase toda a minha existência com a actividade profissional a que me dediquei.

Mas para quem pense que a odisseia tinha terminado ainda faltava uma dura etapa. Palmilhar mais sete quilómetros por uma estrada de carro de bois, onde por vezes os pés mergulhavam no borralho até ao tornozelo, por vezes sobre um sol escaldante e ainda com as provisões e roupas necessárias a um mês de estadia. Tinha realmente de gostar-se muito da sua terra para se sujeitar a esta verdadeira provação.

Quem passava por todos estes tormentos nem por eles dava, pois, a sensação de chegar, ver os seus familiares, amigos e a sua terra tudo compensava.

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