O caso em concreto, o motivo desta reflexão, é o  auto intitulado Movimento pela Defesa do Alto Ceira.  Segundo os seus promotores, não sabemos se fundadores, e citamos, "Partimos da discussão em torno da criação do parque fotovoltaico e produção de hidrogénio no Alto Ceira, ideia à qual estamos completamente contra. Mas a nossa intervenção não se extinguirá neste assunto particular. É em conjunto que poderemos ter a força necessária para fazer ouvir a nossa voz."

(Opinião) Por Luís Gonçalves

Nasceu nas Redes Sociais, e por lá tem desenvolvido as suas raízes, como muitos outros movimentos que nascem na rede, tentando transportar para a realidade do dia a dia as suas ideia mais ou menos consensuais, mais ou menos extremadas, mas todos muito politizados, embora os seus promotores nunca o admitam.
O caso em concreto, o motivo desta reflexão, é o  auto intitulado Movimento pela Defesa do Alto Ceira.  Segundo os seus promotores, não sabemos se fundadores, e citamos, "Partimos da discussão em torno da criação do parque fotovoltaico e produção de hidrogénio no Alto Ceira, ideia à qual estamos completamente contra. Mas a nossa intervenção não se extinguirá neste assunto particular. É em conjunto que poderemos ter a força necessária para fazer ouvir a nossa voz." . Logo à partida, e sem manifestar as razões da posição, mostram-se contra a intenção de um projecto cujos aspectos técnicos não são conhecidos, e onde o envolvimento financeiro é ainda um segredo bem guardado por parte de quem se propõe a executar o empreendimento. Mas independentemente de haver ou não razões expostas para a oposição ao projecto, cerca de três centenas de utilizadores aderiram à página do movimento, não querendo com isto dizer que aderiram ao movimento, pois com um mínimo de conhecimento destas coisas das Redes Sociais, sabemos que fazer parte de um determinado grupo pouco ou nada significa. A prova é que quando este tipo de movimentos se expande para lá do teclado, o resultado nem sempre é o idealizado pelos seus promotores.
Mas voltemos ao  Movimento pela Defesa do Alto Ceira. Neste caso presente, e conhecendo as posições anteriores de alguns dos promotores, a componente política é fortemente sentida na postura, e algumas vezes nas reacções que chegam a ultrapassar as regras banais de um exercício democrático. Não querendo com isto dizer, que não haja neste movimento, convicções idealistas e firmemente suportadas por filosofias de vida, ou gente que ama as serras de tal forma que não aceita  outra visão que não seja a natureza simples no seu estado puro.
Outro dos aspectos que merece a nossa reflexão é o universo dos que fazem parte do movimento. Quantos habitam a região, quantos visitam a região, quantos nem sequer conhecem a região? Sabemos de antemão que este tipo de perguntas incendiará alguns aderentes do movimento capazes de passar do exercício democrático para a agressão pura e simples em menos de um "click", mas a questão terá sempre que se colocar.
No caso em apreço, e exercendo o direito de cidadania, que não pode nem deve ser condenado como delito de opinião, temos sérias duvidas que estejamos perante uma calamidade ou por outro lado estaremos contra uma oportunidade.
Se estamos a falar de poluição visual, é um facto que elementos artificiais no cume de montanhas tão bonitas como o são as Serras da Pampilhosa, não serão propriamente uma decoração de topo no ambiente natural. Provavelmente será constrangedor olhar uma encosta, outrora decorada com urzes, estevas e giestas, pejada de elementos artificiais todos iguais de uma monotonia sem fim.
Por outro lado se nos preocupam aspectos mais profundos, como a utilização de quantidades astronómicas de água, então temos sempre que equacionar, se de facto a água utilizada será um desperdício ou um contributo fundamental para a descarbonização do planeta.  Temos também que levar em linha de conta que o método proposto utiliza a corrente eléctrica para separar o hidrogénio do oxigénio que existe na água, se acrescentarmos que essa electricidade será obtida nas Serras da Pampilhosa de fontes renováveis, então produziremos energia sem emitir dióxido de carbono na atmosfera, e colocaremos as Serras na linha da frente no combate ao aquecimento global.
Mas há aspectos em jogo que podem e devem ser equacionados, e aqui o movimento poderia eventualmente ter um papel fundamental. Estamos a falar de aspectos técnicos que poderão fazer toda a diferença. Sabemos que as águas nas Serras da Pampilhosa, com maior evidência no Alto Ceira, são águas com um grau de pureza elevada, e à partida um mau condutor para a produção de hidrogénio. Como resolverão os promotores do suposto projecto a baixa rentabilidade provocada pela pureza da água? Sabendo nós que a eficácia da electrólise da água pode ser aumentada adicionando um electrólito, como sal, um ácido ou uma base, então seria interessante saber se no projecto, que parece estar ainda na fase de estudo, vai utilizar algum destes produtos que eventualmente poderão ser nefastos em zonas com forte sazonalidade como é o caso do Rio Ceira.
Outro aspecto, provavelmente o mais significativo na vida de quem vive no território, é a questão das contrapartidas. Também aqui a falta de informação é evidente, justificada provavelmente pelo facto de tudo o que se sabe não passar de suposições, pois não há nada de concreto. Poderá aqui um empreendimento desta capacidade, reinventar a vida dos que vivem no território abrangido? Ninguém no presente poderá de alguma forma responder com um grau elevado de certeza a esta questão, que, tal como é apresentada, mais parece um fim do mundo anunciado a curto prazo, quando na realidade nem prazo há ainda.
É claro e inequívoco, que Pampilhosa da Serra não pode vender castelos e palácios porque os não tem, não pode vender praias de areia fina porque as não tem, mas pode vender natureza e ar puro que é algo que abunda nas Serras da Pampilhosa, e certamente os seus responsáveis deverão estar atentos a estes factos, assim como não podem negar projectos sem conhecer todas as vertentes do problema.

Luís Gonçalves

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