Elísio Chaves Presidente da ACRL

Hoje damos voz a um homem que tem dado grande parte da sua vida e do seu tempo à nobre causa que é a do regionalismo. Este movimento muito tem contribuído para que o interior não tenha sido completamente votado ao ostracismo, apesar da eventual desertificação que possa estar a verificar-se, apresentar, até, na grande maioria dos casos, uma qualidade de vida razoável para os seus habitantes.

Elísio Chaves, de 61 anos, oriundo de Tondela, é licenciado em Sociologia, trabalha no Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana como técnico superior, é também presidente da Direcção da Casa do concelho de Tondela e Presidente da Direcção das Casas Regionais em Lisboa (ACRL).

 

SerrasOnLine News Quem é o Elísio Chaves?

Elísio Chaves –  Sou  Pai de duas filas e uma neta. Sou uma pessoa tranquila, e participativa, com alguma experiência que fui adquirindo ao longo da vida. Fui eleito autarca por 2 vezes, participei na vida associativa das associações de pais. Fiz parte da Direcção da FAPsintra e Ferlap Lisboa. Fui representante dos pais no concelho municipal da educação de Sintra e da CPCJ de Sintra. Tenho casa em Tondela e vivo na Pontinha.

 

SerrasOnLine News – Qual o objetivo das Casas Regionais e no caso da ACRL?

Elísio Chaves – Da ACRL, fazem parte 24 casas associadas e as mesmas preconizam objectivos  comuns. A sua direcção é composta pelos representantes da casa do concelho de Tondela, da Casa de Castanheira de Pêra, Casa do Concelho de Arronches, Casa da Comarca da Sertã e Casa de Ponte de Lima.

São elas:

Casa do Concelho de Arcos de Valdevez, Casa da Comarca de Arganil, Casa Regionalista de Ferreira do Zêzere, Casa do Concelho de Alvaiázere, Casa do Concelho de Castanheira de Pêra, Casa do Concelho de Penacova, Casa do Concelho de Ponte de Lima, Casa dos Tabuenses, Casa do Concelho de Tomar, Casa do Concelho de Tondela, Liga dos Amigos de Valença do Minho, Casa dos Courenses, Casa do Concelho de Castro Daire, Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, Casa dos Cerveirenses, Casa do Concelho de Aguiar da Beira, Casa do Concelho de Cinfães, Casa da Comarca da Sertã, Casa do Concelho da Covilhã, Casa do Concelho de Gouveia, Casa do Concelho de Arronches, Casa do Concelho de Góis, Casa das Beiras e Casa do Concelho de Vila Velha do Ródão.

Nos seus estatutos, A ACRL – associação das casas regionais em Lisboa, constituída em 27/11/2007-compete a promover os valores do regionalismo através da cooperação, intercâmbio , convívio e participação entre as casas regionais ou equiparadas e destas com Entidades e Comunidades Locais., compete ainda promover a união de todas as Casas Regionais em Lisboa com vista à satisfação dos interesses comuns e ao melhor desenvolvimento das suas actividades associativas; representar e defender os interesses comuns das casas regionais ou equiparadas junto das entidades Oficiais, Organismos Públicos e Privados. Em geral, as casas regionais têm por objectivo promover a cultura, gastronomia, história e tradições dos concelhos que abrangem, nomeadamente através da realização de iniciativas para os associados, familiares e amigos, promovendo uma sã convivência entre todos e amplificando o potencial de cada terra.

Quanto à ACRL, diria que o principal objectivo é o de servir de pólo agregador das casas regionais, nomeadamente junto da Câmara Municipal de Lisboa, com vista à resolução de determinados problemas e necessidades específicas, bem como promover a sua divulgação e das iniciativas que desenvolvem.

 

SerrasOnLine News – Quais os principais problemas que as Casas Regionais apresentam actualmente?

Elísio Chaves – As casas regionais, lutam para se manterem vivas e participativas, por vezes sem apoios das freguesias aonde estão instaladas e do município de Lisboa.  Lisboa, cidade capital, recebeu milhares de pessoas do interior a procura de trabalho e do outro meio de sobrevivência, deixando para trás as suas raízes, regressando posteriormente  para matar saudades e participar nos eventos que as mesmas lhe proporcionam. Na sua vinda para Lisboa, vieram a procura de emprego e melhores condições de vida. Já em Lisboa organizaram-se, criando instituições regionalistas, com o objectivo de se apoiarem mutuamente e de conviverem e defenderem a sua estrutura cultural, muitas delas, são instituições regionalistas com o estatuto de utilidade pública. A cidade de Lisboa deve a estes homens e mulheres, a sua construção enquanto cidade capital, através do seu espírito de sobrevivência.   Muitas casas regionais devido a nova lei das rendas NRAU , perderam as suas instalações e procuram alternativas à sua sobrevivência em novas instalações com rendas que possam pagar, falhando a falta de apoio da sua freguesia e município de Lisboa. Muitas casas regionais, tem os seus grupos folclóricos e grupos de cavaquinhos e concertinas, encontram-se parados devido ao surto pandémico que alastrou em todo o mundo e não podem fazer ensaios dos seus grupos. Era urgente que a Câmara de Lisboa ou juntas de freguesias fornecessem testes higiénicos para que se iniciasse um processo de ensaios e convívio e preparar-mo-nos para o futuro sem pandemia. O município que se orgulha de ter uma representação em Lisboa, devia dar o apoio necessário a sua embaixada em Lisboa, divulgando e apoiando os seus conterrâneos. A casa regional e uma outra freguesia do seu concelho que necessita de ser sustentada e apoiada, apesar de serem autónomas. Quanto aos principais problemas, diria que estão relacionados com o envelhecimento dos associados e a dificuldade na renovação, bem como com a falta de sede ou deficientes condições que actualmente algumas apresentam, dificultando a realização de iniciativas. A Casa da Pampilhosa da Serra, da Sertã, de Alvaiázere, Ferreira do Zêzere encontram-se em obras a pensar no futuro.

 

SerrasOnLine News – Para quem conhece o meio, o funcionamento das Casas Regionais é baseado no voluntariado, a título gracioso. Tem sido fácil conseguir novos elementos para fazer este tipo de trabalho, a todos os títulos meritório?

Elísio Chaves – Lei no 20/2004 de 5 de junho Estatuto do Dirigente Associativo Voluntário – prevê a falta e a respectiva remuneração ou substituição de ferias, será o único apoio, no entanto, raro ser usado. Os jovens que arranjam emprego ou que estudam em Lisboa procuram associar-se a grupos de jovens informais, faltando aqui a divulgação em Lisboa das suas casas regionais, a para de uma oferta de eventos regionais na capital e falta de divulgação dos mesmos.  Por se tratar de um trabalho voluntário, todos os dirigentes têm um horário de trabalho a cumprir, e só depois poderão dar o apoio necessário as associações de que são dirigentes. Este trabalho voluntário não remunerado, faz mover muitas pessoas e faz movimentar uma sociedade inteira não é devidamente valorizado.

 

SerrasOnLine News – Nesta altura de pandemia, tem sido particularmente difícil? Pode-nos enumerar as principais dificuldades que têm sentido.

Elísio Chaves – As casas regionais, estão a atravessar o período mais critico da sua história. Não podemos fazer eventos internamente e publicamente, para angariação de fundos,  com objectivo de suportar a existência das suas instalações e,  satisfazer as suas necessidades básica como sejam pagar a Luz a Agua a sua internet e despesas de manutenção. Estamos a travessar um periodo de abandono dos sócios, porque quem não é visto não e lembrado. A agravar a situação, estas instituições, nos seus eventos tem de abandonar os plásticos e comprar tudo em cartão, porque a lei impões tais medidas. Por outro lado, a ACRL, não pode organizar eventos para poder apoiar as casas regionais e para si própria. Resta-nos pedir apoio aos municíipios sensibilizando-os para nos apoiar com estas necessidades básicas.

 

SerrasOnLine News – Sabemos que defendem a ideia da criação de um espaço comum que aglutine as Casas Regionais, para divulgação e comercialização dos produtos endógenos das diversas regiões. Defendem que seja um espaço permanente, ou será suficiente, fazer-se a divulgação como tem sido feita até aqui, em eventos, feiras e certames?

Elísio Chaves – Seria uma boa ideia a concretizar no futuro que se encontrasse um espaço central em que se aglutinasse a possibilidade da presença das casas regionais, alternadamente  e ao mesmo tempo tivesse um espaço para venda de produtos regionais e aonde pudessem actuar grupos para chamar naturais de vários concelhos a procurar produtos endógenos,  centro de reuniões de apoio a negócios no interior e sua divulgação.

Por outros lado, a existência de um palco permanente para divulgação de grupos etnográficos com a actuação de ranchos folclóricos  que representem o interior e das nossas regiões, para turista ver e procurar encontra no interior. Com esta centralidade, o país reunido e divulgado e poder-se-ia centrar o apoio técnico a uma possível candidatura regional do nosso folclore, com os respectivos trajes e costumes a património mundial da UNESCO. O cante alentejano é ensinado nas escolas e divulgado na universidade de Évora o futuro passa obrigatoriamente pelo ensino das escolas.

SerrasOnLine News – As entidades oficiais, tais como: Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia e outras dão o devido valor e apoio que estas Casas regionais merecem, como veículos de divulgação da riqueza cultural regional?

Elísio Chaves – Cada casa é um caso mas de uma forma geral diria que as Câmaras reconhecem o trabalho, embora nem sempre isso se traduza na atribuição de apoios financeiros.

 Neste momento, existe um evento anual que a câmara municipal colabora e apoia pontualmente, mas queremos mais e necessitamos de organizar mais eventos em Lisboa para apoio a sobrevivência das casas. Estou convencido que não existe um lisboeta que não tenha nos seus ascendentes, parentes que não tenham raízes do interior.

 

SerrasOnLine News – É um facto que o paradigma, os desejos e os anseios que as Casas Regionais apresentam neste momento, são completamente diferentes da data da sua criação. Terão as casas tido a capacidade de se adaptar a esta realidade mais recente, ou necessitam de uma actualização urgente?

Elísio Chaves – As casas regionais, tem de saber criar alternativas aos objectivos que tiveram inicialmente. Algumas já o fazem não área do desporto do folclore etc. A Acrl , gostaria muito de ver outros projectos implementados em Lisboa, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e das freguesias de Lisboa. A ideia de  concurso de sopas em que cada casa regional confeccionasse uma ou duas sopas e as colocasse a concurso com um júri de apoio. Servia para divulgação dos produtos endógenos.

 

SerrasOnLine News – Falando agora de futuro, terão as Casas Regionais futuro, ou acabarão por desaparecer?

Elísio Chaves – Se nós tivermos o apoio das Câmaras Municipais de Lisboa e dos nosso territórios de pertence, iremos ter muito trabalho pela frente e algumas dificuldades, depende sempre dos seus dirigentes, das suas atitudes perante a vida. Talvez a ACRL, inicie um processo de formação para organizar as instituições e ser capaz de pedir apoio á acamara municipal para organização de projetos, estaremos sempre disponíveis em nome das casas para lhes dar apoio, assim a câmara municipal nos considere parceiro da cultura.

 

SerrasOnLine News – Tem sido fácil a captação e a envolvência neste movimento das gerações mais novas? O que é que as Casas pretendem fazer para captar as segundas e as terceiras gerações de descendentes das nossas zonas?

Elísio Chaves – O conceito de participação nos movimentos associativos criados na geração anterior era feito por necessidade e objectivos comuns. Temos, hoje a ideia que filhos e netos tem conceitos diferentes de participação em muitos casos, será sempre por troca de uma  compensação monetária.   No entanto, acreditar e puxar por todos os que se identifiquem pela cultura das tradições e do saber estar e organizar projectos para a juventude, na área do desporto e da cultura.  Dar informação aos residentes da existência de estruturas regionais. Penso que o conceito está já a mudar na participação.

Saber fazer, saber organizar e saber proteger, deverá ser sempre um ponto de partida para uma formação e informação.

 

 SerrasOnLine News – É verdade que o desenvolvimento rural se deve em grande parte, ao impulso gerado pelas Casas Regionais?

Elísio Chaves – As Ligas de Amigos sediados em muitas casas regionais em Lisboa, fomentou o apoio monetário, desenvolver as terras que deixaram e onde não havia emprego. Na altura a sua função era arranjar dinheiro, para construir hospitais, quartel de bombeiros, abastecimento de água, construção de estradas e arruamentos etc.  e os objectivos inicialmente para que foram criadas, alterou-se, a sociedade de desenvolvimento globalizou-se e as pessoas não tem necessidade das casas para desenvolver os seus objectivos. Algumas casas criaram em Lisboa a sua estrutura de aldeia/freguesia para angariação de fundos para a construção de infraestruturas necessárias para apoio as pessoas que lá ficaram. Agora devemos preservar o que temos no interior e as entidades locais serem capazes de apoiar quem pretende regressar. Temos muita coisa para oferecer, segurança, bom ambiente, habitação com qualidade, natureza, paisagens deslumbrantes, alimentação saudável, empregos, redes alternativas de energia etc, etc.

 

SerrasOnLine News – Tem sido devidamente aproveitada a pouca imprensa regional que existe no País, para divulgação eficiente das actividades das Casas e da cultura regional que existe no País?

Elísio Chaves – A imprensa regional, só tem conhecimento do trabalho efectuado, quando as suas casas fazem a divulgação ou quando enviam a notícia do acontecimento, no entanto e pensando bem, deviam demonstrar mais interesse em saber o que se passa nas associações de sua pertença.

 

SerrasOnLine News – Sente que temos alguma dificuldade em partilhar aquilo que é “nosso”, com os outros, nomeadamente com os ditos “urbanos”?

Elísio Chaves – Não sentimos dificuldades nenhumas em divulgar aquilo que é nosso, porque todos nós somos e sentimos orgulho daquilo que representamos, o problema é termos oportunidades em divulgar e em criar grupos com quem nos identificamos culturalmente. As casas regionais, já fizeram eventos em conjunto, no rossio na praça da figueira e praça do comercio e apresentamos o folclore das nossas terras e gostávamos de voltar.

 

SerrasOnLine News – Para terminar queria deixar alguma mensagem para os nossos leitores?

Elísio Chaves – A todos os leitores, pessoas do interior e citadinos, deixo um recado, preservem a cultura dos nossos ascendentes e criem, para uma sociedade que vive para o turismo e do turismo. Eu sinto que nós banalizamos a nossa cultura como povo, mas é essa cultura que banalizamos e que os outros admiram e gostam. Estamos a tempo de mostrar aos outros a estrutura etnográfica e gastronómica que temos na região de Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

 

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