Sendo este o ano em que se regista meio século após o seu falecimento, este grande pintor fajaense está praticamente votado ao esquecimento. Pena, porque é autor de uma grande e vasta obra, não valorizarmos adequadamente os nossos antepassados que por força do seu talento e trabalho conseguiram sair do anonimato não apenas a nível regional, mas a nível nacional e mesmo internacional.

Na sequência do terceiro ciclo de conferências organizado pelo Grupo de Amigos do Património Pampilhosense, em que foi abordada a vida e obra deste pintor, de uma forma brilhante pelo Dr. António Rosa, pedimos que nos fornecesse um texto abordando esta tema.

Prontamente o Dr. António Rosa, o disponibilizou, o que o "SerrasOnLine News" desde já agradece. Espero que os nosso leitores apreciem. Se pudermos, mesmo de uma forma muito modesta contribuirmos para este nosso conterrâneo seja mais conhecido, pois bem o merece, damo-nos por satisfeitos.

Passamos a reproduzir o texto que nos foi enviado pelo Dr. António Rosa.

GUILHERME FILIPE: UM PEQUENO RETRATO DO MAIOR PINTOR PAMPILHOSENSE

António Amaro Rosa

 Guilherme Filipe Teixeira nasceu em Fajão corria o ano de 1897. Apesar da sua propensão para a arte «a família não o apoiava muito nesta sua vocação, bem certa de que o caminho das artes não era – como ainda hoje não é – a via mais acertada para a satisfação duma vida económica desafogada e independente» (MACHADO, 1994: 72). Não obstante, conseguiu enveredar pelas Belas-Artes, estudando inicialmente em Lisboa e mais tarde em Madrid. Na capital portuguesa realizou vários cursos livres da Sociedade Nacional de Belas-Artes, tendo igualmente frequentado os ateliês de José Malhoa e António Tomás da Conceição Silva.

Graças a um mecenato do banqueiro Cândido Sotto Mayor, o fajaense ruma a Madrid. Durante a sua estada na capital espanhola foi aluno de Joaquín Sorolla, na Real Academia de Belas-Artes de São Fernando, tendo participado em exposições individuais e colectivas. Paralelamente «participou numa uma série de exposições colectivas e individuais e fez parte de várias tertúlias artísticas e literárias, nomeadamente no famoso café madrileno El Pombo onde é introduzido pelo escritor e jornalista Ramón Gómez de la Serna» (WIKIPEDIA).

Aos 21 anos, Guilherme Filipe estreia-se, de forma polémica, na Exposição de Artes Plásticas de 1918, na cidade madrilena. Pretende ali expor um quadro de dimensão extravagante intitulado “Salomé”, para o qual «teve que contratar uma dezena de moços. Mas ou porque o quadro não cabia para entrar pela porta do Palácio das Exposições ou porque ao júri não apareceu que o quadro tivesse assim tanto mérito para ocupar tão grande espaço na sala das exposições, o quadro foi recusado» (MACHADO, 1994: 74). Não se dando por vencido, o fajaense dependura a sua criação artística numa árvore próxima ao edifício. À saída da inauguração oficial da mostra e confrontado com o gigantesco quadro colocado no exterior, o rei D. Afonso XIII refere-se-lhe como um acto de “rebeldia lusitana muy simpática”. Depois de Madrid, Guilherme Filipe assenta durante algum tempo na cidade de Salamanca, tendo por companhia o caricaturista Luis Bagaria.

Mais tarde regressa a Portugal e permanece por Coimbra. Aqui realizou a sua primeira exposição inicial, da qual foi editado um catálogo intitulado “Primeira exposição Guilherme Felipe em Coimbra” (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1922). No ano seguinte efectua nova exposição na “Lusa Atenas”, sendo que também dela foi publicado um catálogo denominado “Segunda exposição Guilherme Filipe em Coimbra” (Coimbra, 1923) contendo um texto de um dos seus grandes amigos: Vitorino Nemésio. Há ainda a registar o facto de, em 1924, ser um dos dirigentes da revista coimbrã de arte, poesia e crítica “Tríptico”.

Entretanto abandona uma vez mais Portugal, rumando a Paris e posteriormente a Madrid. De permeio realizou algumas exposições em Coimbra, Lisboa, Porto, Corunha, Vigo, Santander, Oviedo, Bilbau e Madrid. Por esta ocasião alguns museus de arte moderna adquirem quadros seus.

O ano de 1932 marca o regresso definitivo de Guilherme Filipe a terras portuguesas. Juntamente com Fausto Figueiredo e Augusto Pina, cria em 1933 a Escola de Acção Artística, no Estoril, destinada a «"estimular as crianças e desenvolver-lhes a intuição artística, para que com as noções elementares de cor, de pintura, e música enriqueçam a inteligência e criem o sentido de ritmos fortes." A escola, fecha pouco tempo depois da sua criação por falta de apoios, uma vez que o ensino era gratuito e a maioria das crianças que a frequentava provinha de meios desfavorecidos» (WIKIPEDIA). Tal não seria o único projecto do fajaense a fracassar, como adiante se verá. Para além desta iniciativa, Guilherme Filipe organizou ainda debates sobre arte e filosofia na Sociedade Nacional de Belas Artes, uma homenagem Egas Moniz pela obtenção do seu Prémio Nobel e sessões clássicas de cinema no cinema Tivoli, com a exibição de filmes comentados.

Ainda na década de trinta, o pintor fajaense abandona a capital portuguesa e instala-se durante cinco anos na Nazaré, local onde retrata gentes e paisagens locais. Algumas dessas telas podem ainda hoje ser admiradas no Museu Dr. Joaquim Manso, situado naquela vila piscatória: «tanto representa cenas da via piscatória, com sua animação e colorido, como tipos da beira-mar – lindas varinas de feições semitas, viúvas de face amargurada, marítimos de gabões castanhos e capuzes fradescos, tal esse “Pescador de luto”, que lembra Zurbaran. Ama os fortes contrastes e as cores vibrantes» (PAMPLONA, 2000: 98). Em setembro de 1939 organiza a “Festa do Mar”, em conjunto com Afonso Lopes Vieira, Joaquim Manso, Hipólito Raposo e Almada Negreiros. «Esta festa marítima, de religiosidade marcante, existe na Nazaré desde 10 de Setembro de 1939, data da realização do primeiro evento do género. Foi o famoso pintor de arte Guilherme Filipe que depois de abandonar o meio intelectual e social do Estoril e após sua adaptação a nível social no meio da comunidade dos pescadores da Nazaré e envolvência na causa deles que organizou a “primeira Festa do Mar na Nazaré”. Foi um evento importante na época dos anos trinta» (GÂNDARA, 2008: 23).

Anos mais tarde, em 1944, Guilherme Filipe funda o “JUBA – Jardim Universitário de Belas-Artes”, um projecto que acalentava no seu espírito há 24 anos. «À frente da Comissão Organizadora estava, claro, Guilherme Filipe, que redigiu o Programa. O JUBA foi criado por Alvará de 6 de Setembro de 1944, e Guilherme Filipe logo escreve: “Este Jardim dera flores de verdade e beleza ao Mundo. Assenta sobre o princípio da liberdade criadora e actua por meio da organização do trabalho e do ensino, numa base de cooperação e solidariedade. O seu objectivo é: 1.º - Cultivar a arte, as letras e as ciências e promover o seu progresso; 2.º - Proporcionar aos artistas e intelectuais residência e outros meios materiais para cada um poder fazer a sua obra – com amor, liberdade e independência”» (MACHADO, 1994: 75). Contudo, o projecto não vingou. Ainda nesta década há a destacar o facto de lhe ter sido atribuído o título de sócio honorário da Casa da Comarca de Arganil. Na década seguinte o pintor promove uma homenagem a Leonardo Coimbra e apoia a candidatura de Humberto Delgado.

Apesar das suas andanças e projectos, Guilherme Filipe manteve as suas ligações à aldeia de Fajão e à região envolvente, designadamente a Arganil. Para a primeira pintou seis painéis alusivos à vida de Jesus Cristo que se encontram colocados na capela de Nossa Senhora da Guia e foi autor da belíssima descrição de Fajão e das suas gentes que se encontra no clássico “Guia de Portugal”, dedicado à província da Beira Litoral, que reproduzimos abaixo (ver “Fajão, por Guilherme Filipe”). Para a vila de Arganil criou três painéis destinados ao seu Cineteatro, actualmente encerrado. «Creio que da última vez que Guilherme Filipe visitou Fajão foi para almoçar com uma roda de bons amigos, na Casa do Zé Maria: Padre Nunes Pereira, Dr. Fernando Vale, Miguel Torga, D. Eurico Dias Nogueira, Maico dos Santos, e não sei se algum mais que tenha passado na memória de quem me prestou a informação. Que melhor companhia podia ele desejar para fazer a despedida da sua tão querida Fajão!» (MACHADO, 1994: 78).

De facto, a 8 de junho de 1971 Guilherme Filipe deixa o mundo dos vivos e o seu corpo ruma a Fajão, onde fica sepultado no cemitério local. Um dos seus grandes amigos, Miguel Torga, que o pintor retratou e que constitui um dos seus quadros mais conhecidos, fez um sentido elogio fúnebre, sendo que alguns versos seus foram igualmente gravados no sepulcro. Tal não seria a única prova de afecto do poeta transmontano pelo pintor fajaense, já que ao longo dos seus diários, Miguel Torga fez várias referências a Guilherme Filipe. Logo a seguir à morte deste, Miguel Torga insere no seu “Diário XI” a seguinte entrada: «Fajão, 10 de Junho de 1971 – Funeral dum amigo pintor, que foi o mais convivente dos homens e o mais camarada dos artistas, e desceu à sepultura na fria e apagada solidão dum ignorado. Com lágrimas de saudade e palavras de justiça, ainda tentei tornar menos soturnas as pazadas de terra que lhe batiam, maciças, no caixão. Mas chovia, e a lama gorda e pesada do cemitério acabou por vencer a tenacidade do meu pranto e da minha fidelidade. Soterrou-o tão violenta e completamente, que não consigo arredar agora do espírito a imagem terrífica dum enterro absoluto.» Outro dos seus grandes amigos, Vitorino Nemésio, expressou em forma escrita o seu pesar pelo fajaense, conforme texto que publicamos na íntegra abaixo (ver “Na morte de Guilherme Filipe”).

Em memória de Guilherme Filipe, os arganilenses atribuíram o nome do pintor fajaense à Sala de Exposições Temporárias que integra a Casa Municipal da Cultura de Arganil. Por seu turno, Nazaré atribuiu o seu nome a uma das suas artérias. Finalmente, a Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra galardoou-o com o diploma de “Mérito Pampilhosense” em 1977 (LOURENÇO, 1991: 77).

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Obras e Estudos

FILIPE, Guilherme – «Fajão», in Guia de Portugal, vol. 3 (Beira. Beira Litoral), 3.ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 394-396.

GÂNDARA, Cristina Baptista dos Santos Ferreira – Religiosidade na Nazaré, trabalho apresentado no módulo “Viver Nazaré”, da Universidade Sénior da Nazaré, Sítio da Nazaré, 2008.

LOURENÇO, António (coord.) – História do Regionalismo Pampilhosense: 50.º Aniversário (1941-1991), Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra; 1991.

MACHADO, António Lopes – «Guilherme Filipe: Um Pintor Fajaense”, in Arganília – Revista Cultural da Beira-Serra, 1.ª série, n.º 2 (1993/1994), João Alves das Neves, pp. 71-78.

NEMÉSIO, Vitorino – Jornal do observador, 2.ª edição, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999, colecção Obras Completas de Vitorino Nemésio, vol. 21.

PAMPLONA, Fernando de – Dicionário de pintores e escultores portugueses, vol. 3, 4.ª edição, Barcelos, Livraria Civilização Editora, 2000.

TORGA, Miguel – Diário (Volumes IX a XII), D. Quixote, 2011.

 

Publicações periódicas

Revista “Ilustração”, n.º 109, de julho de 1930.

 

Recursos na Internet

<URL:http://cm-pampilhosadaserra.pt/pt/go/personalidades>. Consultado a 2011-09-06.

<URL:http://diasquevoam.blogspot.com/2010/07/o-juiz-nao-morreu.html>. Consultado a 2011-09-06.

<URL:http://fajao.no.sapo.pt/museu/P1010082.JPG>. Consultado a 2011-09-06.

<URL:http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_Filipe_(pintor)>. Consultado a 2011-09-06.

<URL:http://www.cm-arganil.pt/espacos-culturais-e-turisticos/sala-de-exposicoes-temporarias-guilherme-filipe.html>. Consultado a 2011-09-06.

<URL:http://www.matriznet.imc-ip.pt>. Consultado a 2011-09-06.

 

FAJÃO, por Guilherme Filipe

 

«Antiga vila, que possuiu foral, situada em uma muito pitoresca concha de serra do mesmo nome, alcandorada sobre o rio Ceira, perto da sua nascente, entre altos e gigantescos penedos de xisto, cuja configuração oferece o aspecto impressionante duma cidade morta, troglodita, escavada de cavernas e castelos naturais (Penalva, Forno, Igreja dos Moiros e Porta da Falsidade). Quem quiser fazer alpinismo e puder andar por entre estes penedos gozará dum espectáculo verdadeiramente estranho, singularmente belo, e terá a ilusão não sabemos se dum convulsionado afloramento do ‘Inferno’ de Dante, visto por Gustave Doré, se de ossadas de gigantes espantosamente estáticos, suspensos sobre um abismo de soutos e ervedais centenários. E quem no mais alto da serra subir à Rocha, a 1.186m. de altitude, poderá então contemplar para oriente, sul e poente, o deslumbrante panorama de dilatados horizontes que vem lá do fundo da Beira Baixa e da Estremadura, num mar de serras pardas, amarelas, azuis e violetas, cuja ondulação lembra uma grande cavalgada que se levanta a carregar sobre a Estrela.

A gente de Fajão é pobre, mas entre resignada e remediada é, ao mesmo tempo, independente, alegre, senhorial e hospitaleira. Nos seus coros (que se ouvem quando trabalha ‘à formiga’) há o sabor e o perfume das canções do Alto Alentejo, trazidas pelos que daí vão às ceifas, ou das da Beira Baixa donde vêm os ranchos, cantando, a caminho da Senhora das Preces, em Aldeia das Dez. Para se defenderem da pobreza da terra, o povo vive mais ou menos comunitariamente, ajudando-se, permutando dias de trabalho e trocando produtos. Na sua memória andam velhas histórias, lendas e contos herdados que fariam a fortuna de grandes romancistas.

É a terra do célebre juiz que julgava e sentenciava por parábolas de delicioso sabor antigo; e também dos não menos célebres fidalgos de estamenha. (Conta-se que certo dia um almocreve encontrou ao cimo da vila um homem a roçar mato, a quem perguntou quantos fidalgos havia na terra e este respondeu: “Comigo somos catorze”.)

O tipo beirão desta zona serrana distingue-se sensivelmente do do resto da Beira. É alto, enxuto, claro ou moreno claro, às vezes citrino, de olhos castanhos ou azuis, aparecendo também o gordo simpático e bonacheirão que parece ter acabado de chegar da orla pirenaica francesa e falando todos um português nítido, sem converter os ss em x, como é jeito de pronúncia das gentes das duas Beiras interiores, alta e baixa. Este tipo aparece entre Pampilhosa da Serra e Arganil, mas é no vale do Ceira, de Góis ao Piódão, pela Cabreira, Sandinha, Colmeal, Fajão e Porto da Balsa, descendo sobre a vertente norte das serras sobre o Alva, desde a nascente deste rio até Arganil e daqui outra vez a Góis – que ele é mais acentuado. Lembra às vezes o habitante das Vascongadas e outras vezes o da montanha entre Covadonga, sob os Picos da Europa, e o mar Cantábrico. À mulher, forte, esbelta, rústica e naturalmente elegante, corresponde tipo idêntico.

[nota] Em Fajão nasceu o publicista e economista José Acúrsio das Neves, de quem a casa do Porto da Balsa, hoje na posse do Dr. António Castanheira de Figueiredo, herdou uma das melhores bibliotecas privadas da Beira e cujos livros se dispersaram ainda não há muito tempo.»

 

FONTE: FILIPE, Guilherme – «Fajão», Guia de Portugal, vol. 3 (Beira. Beira Litoral), 3.ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, págs. 394-396)

 

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