Nuno Sabu, Baterista autodidata nascido em Lisboa, mas com fortes raízes na Pampilhosa da Serra, em particular na aldeia de Vale Serrão, vivido na capital da capital, a Graça.

Começou a tocar bateria aos 15 anos, tendo iniciado o seu primeiro projecto aos 16, sempre situado no espectro Rock/Metal até aos dias de hoje. Tem 4 discos de originais editados. “My mirrored self “ (Gondolin,1999), “Slipless Monster” (Inner Blast 2011), “Prophecy” (Inner Blast 2016) e “Figment of the imagination” (Inner Blast 2019) tendo também um EP pronto a sair, a espera de melhores dias, pelos Porta Voz. Nuno Sabu, um baterista do underground nacional.

SerrasOnLine News – Começemos pelo mais simples. Quem é o Nuno Sabu?

Nuno Sabu – O Nuno Sabu na verdade chama-se Nuno Fernandes, um descendente dos ‘’Barata’’ de Vale Serrão. Um apaixonado pela música em geral e pela informática, profissão que exerci até há 5 anos atrás. O Nuno é um gajo calmo, que gosta pouco de confusões e com uma imagem que em nada tem a ver com muito daquilo que vamos falar hoje. O Rock e o Heavy Metal. Quem não souber que sou um músico de Rock e Metal, ao olhar para mim dificilmente vai acreditar.

SerrasOnLine News – Fale-nos um pouco das suas origens, das suas ligações ao Concelho da Pampilhosa da Serra?

Nuno Sabu – A minha ligação a Pampilhosa da Serra e mais concretamente a Vale Serrão tem origem na minha família paterna. Os ''Barata Fernandes''. Sou do tempo de passar o verão inteiro na aldeia, 3 meses inteiros, era mágico. Tudo proporcionado pelos meus avós que tiveram uma presença muito marcante na minha infância e início de juventude e que todos os anos, no verão, regressavam à sua aldeia. Relembro também a minha bisavó ''Rosa'', para mim Conceição, que nos aguardava ansiosamente a cada início de Julho. Infelizmente com a morte do meu avô tudo se alterou. No entanto, tenho sempre mantido uma ligação ao Vale Serrão.

SerrasOnLine News – Visita a aldeia de onde são originários os seus pais com frequência? Equaciona alguma vez acabar os seus dias, naquele pacato recanto?

Nuno Sabu – Não tantas quanto gostaria, no entanto tento fazer no mínimo uma visita por ano. Nos últimos anos tenho escolhido o inverno por razões profissionais mas a paixão de voltar ao Vale Serrão mantém-se inalterável. É sempre bom rever os amigos, voltar a sentir o cheiro da aldeia, da casa. Só não sei o sabor do vinho. Eu não diria acabar, porque experimentar uma vida no Vale Serrão foi algo que ao longo dos anos sempre esteve presente em mim. No entanto, reconheço que uma decisão dessas será sempre mais fácil de tomar se conseguir chegar à idade da reforma. Não conseguindo garantir, não é algo que coloque de parte, de todo.

SerrasOnLine News – Esta profissão ou hobbie que escolheu foi influenciada por alguém ou surgiu por acaso?

Nuno Sabu – A entrada na música aconteceu com os amigos do bairro. Era habitual entre amigos fazermos umas rodinhas com guitarras. Quase todos davam uns toques. Até que um dia, cinco de nós decidimos marcar duas horas num estúdio. Nesse dia, por ser o último a entrar na sala, só sobrava um instrumento, a bateria. E lá fui eu sentar-me e pegar nas baquetas pela primeira vez. Nunca mais dei importância à guitarra, apesar de na altura manter as guitarradas com os amigos da rua, a pancada da bateria seguiu até aos dias de hoje. No meu caso acho que todos nós nos influenciamos uns aos outros lá na juventude, mas claro, os anos passam, e cada um segue o seu caminho. O meu segue com a bateria sempre presente.

SerrasOnLine News – Vive exclusivamente desta arte ou funciona apenas como complemento de outra actividade profissional?

Nuno Sabu – Sempre estive na música como atividade paralela. Se lá no início o sonho de me profissionalizar existiu, rapidamente optei por uma profissão aparentemente mais segura. Não só porque constitui família relativamente cedo, como me permitia tocar o género musical que mais me agradava, sem nunca perder a magia e o gozo que a música me dá, sem comprometimentos, sem patrões. Depois também funciona quase como uma terapia. Tocar é algo que pretendo fazer até que o corpo permita.

SerrasOnLine News – Como vê o panorama nacional da música portuguesa, nomeadamente este tipo específico?

Nuno Sabu – Todos nós sabemos que o Heavy Metal nunca será um género para as massas. A nível nacional, salvo raríssima excepção todos tocamos por gozo pessoal. Ser músico em exclusivo na nossa área é bastante difícil, no entanto o gosto pela causa deixa todos esses problemas para trás e as bandas vão-se mantendo como podem, umas mais rentáveis, outras menos. No entanto, longe vão os tempos em que o género era olhado com desconfiança. As mentalidades vão-se alterando e hoje já temos mais frequentemente Pais de família a passar a influência da música mais pesada aos seus filhos. Infelizmente não foi o meu caso. Apesar de tudo tenho conseguido ter nos meus concertos mais importantes, toda a minha família.

SerrasOnLine News – Vamos agora a uma pergunta mais incómoda. Vamos aqui abordar o tema das drogas. É verdade, ou é um mito que a grande maioria dos músicos as usa para conseguir aguentar a elevada solicitação que é necessária durante os concertos?

Nuno Sabu - A questão das drogas é infelizmente transversal a todos os nichos da nossa sociedade, e sim, durante muito tempo os músicos de Rock e também os seus fãs foram associados ao consumo de drogas. É inegável que muitos artistas se perderam nesse submundo pelas mais variadas razões. Falando do que melhor conheço que é o underground nacional, havendo casos muito pontuais esse não é um problema dos dias de hoje. A partir da viragem do século, esse foi um problema que quase desapareceu no seio da música pesada. A meu ver o problema do álcool, bem aceite pela sociedade, é algo bem mais complicado, e que não se cinge apenas a músicos e fãs de Rock e Metal.

SerrasOnLine News – Outro mito que pretendíamos que desmistificasse. Sexo, drogas e rock’n rol, é mesmo assim?

Nuno Sabu - Nos anos 80 e 90 do século passado as grandes bandas Rock, nomeadamente as americanas e inglesas, viveram muito esse espírito. As bandas corriam pelo mundo. Havia as groupies, e as festas onde não faltava nenhum dos 3 ingredientes. Não, não é um mito. Isso aconteceu mesmo mas foi essencialmente vivido pelas grandes bandas. No caso português, e principalmente no meu caso, o que houve mesmo foi muito rock’n rol.

SerrasOnLine News – Outra pergunta mais ou menos incómoda. Para um jovem como o Nuno, com uma boa figura, como é gerir o assédio das fãs, que com certeza existe no meio musical? Deve ser complicado também em termos familiares?

Nuno Sabu - Foi quase sempre fácil. As groupies do rock e do metal, regra geral, sentem-se atraídas por gadelhudos, vestidos de preto, tatuados. Sendo essa uma imagem que nunca adoptei, acabei quase sempre por passar ao lado desse tipo de situações. Em termos familiares também foi quase sempre tranquilo. A minha companheira de sempre já me conheceu como baterista e sempre respeitou a minha posição com uma grande classe. Esteve sempre presente nos momentos mais importantes da minha vida musical. No entanto, não sendo uma fã de rock e metal, na maior parte das vezes fica em casa à minha espera. Cheguei sempre inteiro. Um quarto de século de vida em comum com muito respeito de parte a parte são o segredo para as coisas correrem bem.

SerrasOnLine News – As letras das canções, são maioritariamente em inglês. Das poucas excepções da vossa banda os Inner Blast, é o tema “Veneno”. Surgiu porquê? Dirige-se a alguém em particular, que como diz o povo “Se morder a língua morre envenenado”?

Nuno Sabu - O tema Veneno surgiu muito espontaneamente assim como a maior parte dos temas dos Inner Blast. Ao longo da composição percebemos que seria um tema completamente diferente dos que tínhamos feito até então. E o que faltaria para esse ser o tema diferente da banda? Ser cantado em Português. A escolha do Português foi imediatamente unânime dentro do seio da banda e em boa hora. Foi até agora o tema mais aclamado pelo público, e temos recebido o melhor feedback mesmo de pessoas fora do espectro Rock/Heavy Metal. A letra é mais uma vez da autoria da nossa vocalista Liliana Silva, e é uma simples história, que não retrata nenhuma experiência de nenhum dos elementos da banda.

SerrasOnLine News – Fale-nos um pouco de projectos para o futuro? Existe muita procura deste tipo específico de música, mais em Portugal ou no estrangeiro?

Nuno Sabu – Estar neste espectro musical em Portugal é uma luta constante por fazer acontecer, no entanto e apesar da pandemia ter parado todas actividades ao vivo, tenho preparado com os Inner Blast a gravação de um novo EP com 3 temas inéditos e 3 temas ao vivo que só será lançado quando a questão do Covid-19 atingir uma maior normalidade. Quanto aos Porta Voz o novo disco está praticamente pronto estando também à espera de melhores dias para a sua saída. Respondendo a 2ª pergunta, a procura em Portugal deste genero de som é relativa. Regra geral encontramos no nosso público as mesmas pessoas, e as organizações que nos contratam também são quase sempre as mesmas. Ainda assim, para 2 projectos de que não dependo financeiramente, situados fora do mainstream, dar 20 a 30 concertos por ano é uma grande vitória. Tem sido assim desde 2011. No estrangeiro, e principalmente no centro e norte da Europa o mercado é completamente diferente. Existe público receptivo, logo existe mercado, e inclusivamente países que consideram o Heavy Metal como um genero nacional. É o caso dos finlandeses, que sentem o Heavy Metal mais ou menos como nós sentimos o fado.

 SerrasOnLine News – Embora não seja o tipo de música, mais consensual nas nossas serras, caso fosse convidado para um espectáculo na nossa Pampilhosa, aceitaria?

Nuno Sabu - Apesar de ser um sonho de tenho desde pequeno, reconheço que o género musical onde estou inserido não me ajuda a cumprir esse mesmo sonho. Tenho a total consciência que será muito difícil vir um dia a mostrar os meus projectos ao vivo na nossa terra, facto que me levou a nunca tentar sequer agendar um espetáculo nas terras da Pampilhosa da Serra. No entanto existe o contrassenso de já ter tocado inúmeras vezes em aldeias do nosso Portugal, inclusivamente na zona das Beiras. Ainda assim se algum dia surgir o convite a minha resposta será sempre um categórico ‘’SIM’’.

SerrasOnLine News – Quem o quiser contractar para espetáculos onde o pode encontrar?

Nuno Sabu - A forma mais fácil será pela rede social Facebook. É aquela em que nos mantemos mais activos, e onde podem encontrar todas as novidades sobre os nossos projectos. Podem encontrar os Inner Blast em: https://www.facebook.com/innerblast e os Porta Voz em: https://www.facebook.com/PORTA-VOZ

Queria por último agradecer o convite do ‘’Serrasonline’’ para esta entrevista. É com muita satisfação que vos respondo. Um convite vindo daquela que considero ser a minha terra, a minha gente, que tanto me diz.

Do Vale Serrão.... Orgulhosamente.

Um Forte Abraço.

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