"No local reservado à assinatura e à menção do País de onde provinha, o meu tio não escrevia apenas “José Barata, Portugal” e sim “José Barata, Pampilhosa da Serra, Portugal”. Disse-me que fizesse sempre assim, que era uma forma de levar o nome da nossa terra pelo mundo. Ainda hoje há destes livros nos museus e ainda hoje sigo o conselho do meu tio. Assino sempre “Ana Barata de Brito, Pampilhosa da Serra, Portugal”."

Na história dos dias do pai, é este o primeiro dia do pai em confinamento domiciliário. Num dia que será sempre o seu, o meu pai mostra-nos a sua casa de família, onde nasceu e passou a infância. É aí que o imagino, neste dia de domicílio forçado, trinta anos após dolorosa e prematura partida.  Óleo sobre madeira e colagem 0,85cm X 0,60cm

O tio da nossa entrevistada, José Barata, ao lado da sua Revista de Direito Administrativo, de que foi proprietário, editor e co-autor durante muitos anos.


"Passear" os olhos pelos quadros de Ana de Brito, é uma viagem surpreendente numa paleta de emoções, ou simplesmente admirar momentos simples e ocasionais que nos transmitem mensagens que provocam emoções variadas.

Das cenas caseiras e intimista observadas em “Humanos de Companhia – 50 retratos”, até ao enigmático "Homem da varinha mágica", onde se adivinha um horizonte de planície sob um céu azul, até ao auto-retrato, surpreende-nos a diversidade e muitas vezes a criatividade de alguém que não gosta de ser considerada artista.

Ana Maria Barata de Brito nasceu na vila pampilhosense, e tem um gosto enorme pela pintura.

Nesta simples conversa, procuramos conhecer a Pampilhosense, que nos deleita com a sua arte e inspiração.

 SerrasOnline News – É  sabido que não gosta de ser considerada uma artista. Pode elucidar-nos o porquê de tal facto?

Ana de Brito – Não se trata de gostar ou de não gostar, a verdade é que eu não sou artista. A minha relação com a Arte é uma relação de vida, frequento museus desde que me lembro de existir, primeiro pela mão dos meus pais e do meu tio, depois pelo meu próprio pé. Acresce que sou irmã de um artista plástico (Fernando Brito). E por tudo isto sei o que é um artista. E sei que não o sou.

SerrasOnline News – Como nasce este gosto pela pintura, e de que forma interfere no seu dia a dia?

Ana de Brito – Como disse, gosto das artes plásticas desde sempre, do desenho e da pintura em especial. Desde criança que vejo o meu irmão a desenhar a meu lado. A minha primeira viagem ao estrangeiro foi à Bélgica, aos doze anos de idade, na companhia do meu tio (José Fernando Nunes Barata). Fomos ambos percorrer a Bélgica, em visita às Catedrais e aos Museus, com o fim de conhecer bem a pintura flamenga. Durante anos, a minha relação com a Arte continuou a ser só de contemplação, de observação e de estudo. Visitei os museus importantes do mundo, frequento feiras de arte, procuro acompanhar as exposições temporárias que me interessam, em suma, é a arte que me faz viajar.

Mas chegou o momento em que a mera contemplação deixou de bastar, em que precisei de experimentar, de experienciar a realização artística. Fi-lo sobretudo para perceber melhor, para sentir a dificuldade do artista e poder compreender e apreciar ainda mais a sua arte. E sucede que a partir do momento em que comecei a desenhar e a pintar, nunca mais parei. Faço-o diariamente no final dos dias de trabalho e faço-o sempre que posso. Desenhar e pintar ocupa uma parte importante da minha vida.

SerrasOnline News – É verdade que só pinta observando fotografias, principalmente retratos? Ao visualizar as suas pinturas, é patente a diversidade de cores, no entanto o tema que parece ser transversal ao seu trabalho são as pessoas. Há alguma razão especial para gostar tanto de pintar aquilo a que chama fotografia de retrato?

Ana de Brito – A pessoa humana sempre me interessou. Ela condicionou há quase quatro décadas a minha opção de vida profissional e condiciona agora a minha experiência nas artes plásticas. Nestas, gosto sobretudo da pintura de retrato. Interessa-me a figura humana, o procurar  captar e registar o lado mais imaterial dum rosto. Como desenho e pinto (quando faço retrato) por observação e não por memória, preciso de um modelo, e por muitas horas. Também gosto de pintar a partir de modelo vivo, mas a fotografia está mais acessível. Utilizo imagens que escolho parcimoniosamente. E não sigo as fotografias, socorro-me delas. Por vezes parto de várias, de onde vou retirando o que me interessa, misturando informação para fazer um único retrato.

SerrasOnline News – Interpretar uma fotografia, levando-lhe toda a alma para uma pintura não é certamente fácil. O que é mais complicado numa imagem, depois de decidir que vai dar uma boa pintura?

Ana de Brito – Como disse, no retrato realizado a partir de fotografias, a escolha destas é já o inicio da obra. A própria fotografia pode ser já, ela própria, arte (refiro-me a fotografia de autor). Mas seja o que for, transporta sempre em si o olhar orientado do fotógrafo, que pode ser manipulador, e há que evitar ficar refém dele.

Quando faço o retrato de um desconhecido, por exemplo a partir de fotografias antigas que adquiro em alfarrabistas, sinto-me totalmente livre para inventar, para criar um novo ser que só existe na minha pintura, e que passa a ser real desde o momento em que o materializo na tela. Mas quando pretendo retratar alguém conhecido, sinto a responsabilidade acrescida de o tornar autêntico e reconhecível. Por vezes pode ser frustrante sentir que não consegui “apanhar” a pessoa. Refiro-me sempre a apanhá-la no seu lado mais imaterial, e não na vertente da mera representação realista. Essa será a maior dificuldade.

Maria Nefertiti Barata ou A minha homenagem ao Novo Grande Museu de Arte Egípcia  em acrílico sobre telaSerrasOnline News – Quando se propõe a criar, inspira-se nalgum artista específico, nalgum estilo ou corrente, ou as suas criações são espontâneas e apenas fruto da sua imaginação?

Ana de Brito – Creio que a espontaneidade absoluta não existe. Mas o processo criativo é  sempre original e conduz à obra original. Sucede que a arte é apropriativa. Os artistas interinfluenciam-se, citam obras alheias nos seus trabalhos, deslocam-se para as cidades e centros de maior actividade cultural ao encontro de outros, vão-se organizando e criando movimentos artísticos. Assim tem sido ao longo da História.

A pintura interessa-me sobretudo no período que vai do Impressionismo até ao momento presente. Assim é natural que eu receba mais influências da arte moderna e da arte contemporânea. E aqui são mesmo muitos os pintores da minha preferência, nem me atrevo a nomeá-los pois esquecer-me-ia sempre de tantos.

SerrasOnline News – A Exposição “Humanos de Companhia – 50 retratos”, que pelo que sabemos são 65, onde pela primeira vez pinta animais, foi certamente um trabalho que pôs à prova a sua enorme criatividade. Como surgiu essa ideia?

Ana de Brito – “Humanos de Companhia” é um conjunto de sessenta e seis retratos a pastel de óleo sobre papel, em que representei pessoas reais ao lado do seu animal de estimação, pois todas tinham em comum viverem com um animal doméstico (o que as transmutava em humanos de companhia). A ideia surgiu de um amigo me ter desafiado a retratá-lo ao lado do seu cão. Decidi experimentar (nunca tinha desenhado um animal) e consegui fazê-lo. Depois seguiu-se o retrato do meu irmão com um dos seus gatos. E os familiares e amigos retratados foram-se sucedendo, acompanhados dos seus cães, gatos, pássaros, tartarugas, patos, burros, num trabalho que durou mais de um ano a realizar. Esta exposição inaugurou em 2019, na Sala Bocage do Centro de Estúdios Judiciários em Lisboa, e irá ser de novo mostrada na Casa Museu Oliveira Guimarães, em Penela. Entretanto tenho mais três projectos de exposições quase finalizados, uma delas está mesmo pronta a ser mostrada. São sessenta desenhos pintados durante o primeiro ano de pandemia e chama-se “About Us / Sobre Nós”. Todos os meus projectos de arte incluem uma alusão à Pampilhosa, por vezes subliminar. Há que descobri-la, ela está lá.

SerrasOnline News – Nesta exposição nota-se que existe em si um amor incondicional pelos animais. É mesmo assim? Há quem diga que quem não gosta de animais é também pouco confiável. Comunga desta opinião ou acha que é um mito?

Ana de Brito – Não sei se quem não gosta de animais é pouco confiável ou não. Sei apenas que sou avessa a generalizações, e evito-as.

Pessoalmente, gosto dos animais em geral e sempre tive animais de companhia. Penso que a sua proximidade pode ser útil na formação e educação das crianças, no combate à solidão dos que se encontram mais sós, e são seguramente um modo de nos sentirmos mais próximos da natureza.

SerrasOnline News – Ainda a cerca desta exposição, e num programa televisivo afirma, que a fotografia revela mais do que aquilo que Lápis de cera aguarelável sobre papel.se observa à primeira vista. Já lhe aconteceu descobrir detalhes fundamentais numa observação posterior e mudar de ideias quanto ao trabalho que tinha planeado?

Ana de Brito - Uso a fotografia em vários contextos. A fotografia enquadra o tema fotografado, funciona como uma espécie de moldura do pedaço de realidade que mostra. E de certa maneira mostra-nos mais.

Como desenhar e pintar pressupõe saber ver, ou seja, exige uma aprendizagem do processo de observação (para poder pintar temos de começar por aprender a ver os objectos que queremos representar), a fotografia pode ser útil enquanto modelo de partida, tanto mais que transporta uma leitura já planificada duma realidade que é sempre tridimensional.

Utilizo também a fotografia para detectar erros nas obras que vou criando. Fotografo-as, observo-as fotografadas e detecto erros que não vira antes. Mas também as utilizo como material a integrar directamente nas minhas obras, em colagens e em transferências de imagens.

SerrasOnline News – Sabemos que a sua vida profissional nada tem a ver com arte, o que de certa forma poderia ser um entrave à sua criatividade. Como concilia estes dois fatores no seu dia a dia?

Ana de Brito - A arte foi sempre o meu outro lado, o lado da minha evasão e do meu reequilíbrio. A minha profissão, que escolhi em consciência e abracei há tantos anos, obriga-me a um permanente exercício solitário de procura de verdade e de correcta decisão. Já na criação artística vale a ilusão (a pintura é a criação de uma ilusão) e a liberdade criativa é total. Tanto mais que não sou artista e nada tenho  de provar aqui a ninguém.

SerrasOnline News – Por último e para terminar gostaria de deixar aqui uma mensagem aos Pampilhosenses?

Ana de Brito – Naquela primeira viagem à Bélgica, nos museus havia um livro de registos para os visitantes poderem inscrever a final as suas impressões sobre a visita. O meu tio escrevia sempre as suas observações e incitava-me a fazê-lo também. No local reservado à assinatura e à menção do País de onde provinha, o meu tio não escrevia apenas “José Barata, Portugal” e sim “José Barata, Pampilhosa da Serra, Portugal”. Disse-me que fizesse sempre assim, que era uma forma de levar o nome da nossa terra pelo mundo. Ainda hoje há destes livros nos museus e ainda hoje sigo o conselho do meu tio. Assino sempre “Ana Barata de Brito, Pampilhosa da Serra, Portugal”.  


 

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