Assinalam-se hoje 20 anos desde o falecimento de Monsenhor Nunes Pereira.
Exemplo de sabedoria, humanidade e amor às suas raízes, nascera a 3 de dezembro de 1906, na aldeia da Mata.
Desde cedo, revelou o talento para as artes, que mais tarde viria a distingui-lo como um dos mais notáveis artistas da região, na segunda metade do século XX.
Foi ainda na escola primária que esculpiu na madeira a primeira figura, tal como o seu pai outrora esculpira o berço em que a sua mãe o embalava, debaixo de meigas canções.
O próprio confessou que moralmente recebeu influencia direta do seu pai que em finais do século XIX, fora o escultor-santeiro mais conhecido em toda a Beira-Serra. Dele herdou o gosto pela arte, um vasto ferramental para trabalhar a madeira, e um nome que é quase um mito.
Não menos influente na formação do padre e artista foi a figura tutelar de sua mãe. Concedeu-lhe um imenso saber de tradições populares e transmitiu-lhe a alma resiliente e solidária. Conseguiu ainda, a muito custo, inscrevê-lo no Seminário, o que acabaria por marcar de forma eloquente a sua vida e respetiva caminhada artística.
Sendo um talentoso artista, nunca deixou de ser um exemplar sacerdote. Soube sempre conciliar o exercício da doutrina pastoral com um crescente interesse pelo cultivo das artes. Desde a poesia à escultura, passando pelo desenho, pela aguarela, pelo vitral e sobretudo pela xilogravura, especialidade em que se viria a notabilizar, e na qual se tornou possivelmente no melhor artista português da época.
Dotado de um intelecto assinável, deambulou criativamente em todas as suas obras, mas sem nunca perder o sentido do regresso fiel às suas raízes.
Foi da pequena aldeia da Mata, em Fajão, que contemplou e nos descreveu um mundo em que a beleza é irmã gémea da simplicidade. Mundo esse perpetuado no museu que lhe foi dedicado, em reconhecimento do distinto espólio que nos deixou, e que reflete a concretização de um dos seus maiores sonhos: perpetuar pela arte, as memórias e a cultura das gentes da Serra do Açor.
Encheu de harmonia vidas inteiras, as mesmas que tiveram a sorte de com ele privar. Monsenhor Nunes Pereira faleceu a 1 de junho de 2001, mas o seu génio e arte aliaram-se na humildade inspiradora do grande homem, padre e artista que foi, para inscrever a sua doce memória na eternidade.
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