"Quanto à Ponte de Fajão, já lá vai o tempo em que se acreditava que iria acabar deserta como já acontece em algumas aldeias. Os mais velhos residentes foram partindo, mas outros já largaram a cidade para retornar ao berço."

Nos tempos que correm, nem sempre é sinónimo de viver no paraíso. As distâncias, as dificuldades de acesso, e muitas vezes a falta de oportunidades, ditam o abandono das aldeias e vilas do interior na procura de vida melhor nos grandes centros urbanos.

Quisemos ouvir de "viva voz", a opinião dos que labutam dia a dia, nas terras do interior.

"Longe da multidão, longe das cidades perto do coração", pode não ser de todo uma afirmação romântica.

Hoje ouvimos,  Sérgio Simão, que vive na aldeia da Ponte de Fajão.

SerrasOnline  News - Quem é o Sérgio Simão e o que faz profissionalmente?

Sérgio Simão -Tenho 37 anos, nasci em Lisboa e lá vivi até aos meus 31 onde trabalhei sempre em restauração.

Os meus pais, ambos da Ponte de Fajão, sempre me incutiram o gosto pela aldeia e pelas nossas Serras. Todas as férias eram lá passadas com as avós e desde criança que sonhava um dia poder fazer daquela a minha morada. Em 2014 olhando para o potencial da nossa zona e da fraca oferta a nível de alojamento, surgiu ideia e a oportunidade de eu e do Ruben criarmos uma empresa de Alojamento Local na Ponte de Fajão. Em 2015 abrimos as Portas das Casinhas do Ceira com duas casas, A Casa da Avó e a Casa da Barroca. Presentemente temos mais duas casas que em breve entrarão na fase de recuperação. 

SerrasOnline  News - Como é viver longe dos grandes centros?

Sérgio Simão -Ao Princípio é complicado admito, mas somos seres de hábitos e em pouco tempo começamos a criar as rotinas certas para facilitarem o processo.

Tudo fica longe, e até as compras básicas tem de ser pensadas minuciosamente. O comércio está no mínimo a 25 quilómetros tentamos fazer esse percurso apenas uma vez por semana.

Sem carro seria muito mais difícil mas hoje em dia até os centros mais distantes como Coimbra, Lousã entre outros ficam mais perto e acaba por servir de passeio.

Da agitação da Cidade não posso dizer que sinta muita falta, pelo contrário, e sempre que existe  vontade e possibilidade rumamos à nossa Lisboa para uma breve visita.

SerrasOnline  News - O que mais lhe faz falta na sua aldeia?

Sérgio Simão -Felizmente na Ponte de Fajão, a Comissão de Melhoramentos tem tido um papel muito importante para que a aldeia se vá desenvolvendo e melhorando as condições da mesma.

Temos tido uma grande ajuda quer da Junta de Freguesia de Fajão quer da Câmara Municipal da Pampilhosa da Serra que estão sempre dispostos a ajudar na medida do possível.

Contudo muito há ainda por fazer. Neste momento posso dizer que o que mais falta faz sejam as Telecomunicações por via subterrânea. Apesar de já termos a rede de Fibra, a mesma está constantemente a ir abaixo pois os cabos foram passados pelas serras queimadas sem limparem as árvores ardidas. Basta vir um pouco de vento e lá ficamos nós afastados do mundo. Chegamos a estar dias sem telefone, internet, televisão e rede móvel.

No nosso negócio é algo que nos preocupa pois já chegámos a ter prejuízos avultados dado termos de cancelar reservas e hóspedes que quiseram ir embora.

Tem sido uma luta desesperante pois ninguém parece querer saber e não há maneira de o problema ser resolvido.

SerrasOnline  News - Como vê o seu futuro na sua localidade?

Sérgio Simão -O Meu futuro é difícil dizer, por enquanto passa por dar a conhecer ao mundo que Portugal não é apenas Lisboa, Porto e Algarve. A Prova disso é que já recebemos hóspedes dos mais diversos países como Coreia do Sul, Rússia, China,  Israel entre muitos outros. Todos saem de cá maravilhados. 

 Quanto à Ponte de Fajão, já lá vai o tempo em que se acreditava que iria acabar deserta como já acontece em algumas aldeias.

Os mais velhos residentes foram partindo, mas outros já largaram a cidade para retornar ao berço.

A Prova disso é que apesar de ainda sermos poucos, a Ponte já tem um Turismo Rural, tem um

restaurante, e 5 crianças a dar vida às ruas da aldeia.

SerrasOnline  News - Se pudesse dirigir-se aos decisores políticos o que lhes diria?

Sérgio Simão -Ocorrem-me várias coisas que gostaria de dizer, mas a primeira seria sem dúvida agradecer o trabalho que tem feito para promover o nosso Concelho.

Mas claro está que existem pontos mais sensíveis a ser tocados e vou tocar no que acho mais importante.

 A Pampilhosa não é só a Vila nem a Barragem de Santa Luzia ou as 3 praias fluviais existentes.

Acho que deveriam olhar mais para o Rio Ceira. Temos um Rio Maravilhoso e que à anos está ao abandono. Temos locais que olhados com olhos de ver seriam de grande interesse para quem nos visita. As margens deveriam de ser limpas com regularidade, e criados mais locais de lazer que por certo iriam atrair mais pessoas. Temos uma praia fluvial que melhorada e com mais condições faria as delícias de muitos. Antes da pandemia o bar da nossa praia que abria pela mão da Comissão de Melhoramentos e da Comissão de Festas chamou à nossa aldeia centenas de pessoas nos últimos dois anos. Nunca a Ponte de Fajão viu tanta gente a procurar a nossa praia. 

SerrasOnline  News - Qual a sua mensagem final?

Sérgio Simão -A minha mensagem final vai muito ao encontro do que disse anteriormente.

Que continuem a promover o nosso Concelho mas que sejam mais abrangentes pois temos um Concelho enorme e com muito para oferecer. Por mais que me agrade ver que existem projetos em andamento, deixa-me triste ver que são sempre para os mesmos locais.

Criando outros locais de interesse pelo concelho talvez ajudasse a que mais pessoas se quisessem fixar nas aldeias trazendo novos projetos e mais postos de trabalho.

Que não deixemos morrer as tradições do povo serrano que tanta riqueza nos deixaram. Que se criem condições para os jovens se fixarem no Concelho ao contrário do que tem vindo a acontecer.

Temos Natureza, temos património temos um legado que devemos honrar em memória dos nossos antepassados que com muito suor e trabalho fizeram verdadeiras obras de arte no que à pedra diz respeito.

Agradeço uma vez mais ao SerrasOnline por mais esta entrevista que espero fazer refletir a quem de direito em alguns dos pontos tocados.

Assim que possível, convido todos os que ainda não conhecem o nosso Concelho a fazerem uma visita pois não se vão arrepender!

 

 

 

 

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