"Quando o Regime Republicano substituiu no nosso país o já cansado regime Monárquico, o partidarismo em Pampilhosa da Serra era o reflexo do sectarismo predominante no país."

Por :  Anselmo Gonçalves (Opinião)


O FENÓMENO POLÍTICO EM PAMPILHOSA DA SERRA COMO FATOR DE INIMIZADE, INTRIGA E MALEDICÊNCIA.

 Alguns Apontamentos Históricos para a Compreensão do Fenómeno Atual

Pampilhosa da Serra vila secular “fundada” no que é possível apurar com clarividência nos meados do século XIII, no entanto, os documentos que apontam para a existência do aglomerado urbano são dos finais do século XIII, princípios do XIV. O seu surgimento deve-se provavelmente à sua localização num cruzamento de caminhos entre a Beira Litoral, Estremadura e Beira Baixa, que eram utilizados já desde a época romana, pois há claros indícios de que esta região foi alvo de exploração em termos mineiros.

No entanto, a Pampilhosa da Serra, foi desde sempre esquecida pelos governantes, no caso, o Estado quer Monárquico, quer Republicano veio criar nos Pampilhosenses um mal-estar alicerçado nas promessas vãs e, nas mentiras dos chamados representantes da nação, que só lhes batiam às portas a mendigar votos, mas que logo os esqueciam quando se apropriavam de uma qualquer cadeira em “S. Bento” (Tal como hoje).

Há data, não temos dúvidas de que os “Caciques” locais, embora bons cidadãos, preocupavam-se com ninharias da política local e não consideravam os verdadeiros problemas do concelho.

A normalidade durante muitos séculos tinha a ver com a falta da unidade de esforços individuais e muito frequentemente em inimizades e desavenças de maior ou menor duração que terminavam muitas vezes em guerrilhas que prejudicavam grandemente os interesses comuns.  Não existia pois, a mais ligeira ideia de solidariedade, e menos ainda o conhecimento exato da responsabilidade que cada um tinha perante os seus deveres cívicos que cabem a todos os que fazem parte de uma sociedade que deseja progredir e sentia, como sente a necessidade de crescer e de se desenvolver.

Quando o Regime Republicano substituiu no nosso país o já cansado regime Monárquico, o partidarismo em Pampilhosa da Serra era o reflexo do sectarismo predominante no país.

Cada uma das fações republicanas que alternadamente frequentava o Terreiro do Paço tinha a sua representação local, com os mesmos defeitos, as mesmas incompreensões e iguais irredutibilidades. É certo que esta representação local se resumia a uma ou duas figuras de cada fação, com a sua corte de afilhados e de pequenos caciques ávidos de serem maiores que se espalhavam pelas aldeias das freguesias do concelho.

Normalmente estes chefes locais eram cidadãos honestos e sérios na sua vida pública, gozando de crédito geral e da consideração das pessoas.

Mas a sua subjugação às figuras que dominavam nas estruturas hierárquicas de cada partido e a pressão que sobre eles era exercida, além das clientelas que pululavam em seu redor, obrigava-os a trilhar caminhos nem sempre retilíneos e a tomar atitudes que não se coadunavam com a sua honestidade pessoal.

Sempre que existiam eleições para deputados da Nação, os candidatos faziam o enorme “sacrifício”, de se deslocarem a sede do concelho (tal e qual o que acontece nos dias de hoje), se os candidatos pertencessem à fação que estava na Câmara Municipal eram por estes recebidos, o que acabava inevitavelmente em lautos banquetes e terminavam sempre com muitos abraços entre correligionários, nessa fase decidia-se trazer às urnas os habitantes analfabetos, ingénuos e com certeza sem noção do que iriam fazer (triste país).

Nas reuniões que antecediam o ato eleitoral em vez de se apresentar um programa de atividades que proporcionassem o desenvolvimento deste concelho (que analogia entre o passado e presente), ensaiavam-se festas, festinhas com muitas bandeirolas nos locais onde passava a estrada? Qual estrada? caminho entre a capital de distrito e a Pampilhosa da Serra, sem que dai resultasse o início e o término da obra.

No dia da votação, este era um dia onde a espetacularidade era ensaiado para deixar o eleitorado amedrontado? Ou aturdido?

O voto à data (como hoje) não era por assim dizer “secreto”, pois o cidadão aproximava-se do seu “Cacique” predileto (ou imposto) pedia-lhe a lista de deputados, e assim dirigia-se à mesa de voto e despejava a lista recebida momentos antes da mão do “Cacique”.

O normal era os “Caciques” disputarem os eleitores desta forma:

             - O senhor vota em mim não vota?

             - O senhor prometeu-me votar no meu partido;

             - O senhor é meu eleitor não é?

Neste caso não era o dever cívico, nem as convicções ideológicas que levavam o anónimo cidadão a ir votar, era sim o sentimento de gratidão por um lado, as dívidas de dinheiro em muitos casos para com os Caciques (eram normalmente os mais abastados nas aldeias).

Era e é de lamentar que o sacrifício desta pobre gente não exprimia, como hoje não exprime, a sua livre vontade de voto, nem de consciência.

Se por um lado isso acontecesse tudo seria diferente, pois o ambiente de baixa política que sempre entravou o desenvolvimento do concelho não teria espaço e as populações teriam hoje mais e melhor qualidade e condições de vida.

A par da atividade política teremos de nos referir à administração local que tinha a ver com a nomeação das pessoas encarregues da gestão municipal. A seleção dos dirigentes era feita por dois processos:

             - A nomeação pura e simples;

             - A eleição.

O primeiro não respeitava os anseios e os direitos do povo. O governo da nação através do governo civil nomeava os seus partidários (isto aconteceu até aos 25 de abril de 1974), sem a mais leve preocupação de indicar pessoas competentes e honestas, muitas das vezes vinham pessoas de fora dirigir o concelho e sabemos hoje que não o conheciam, assim como não conheciam as suas reais necessidades (se é que de isso se importassem).

Por via da regra estes homens dirigentes do concelho limitavam-se no decurso de muitos anos a equilibrar as suas contas pessoais e a desperdiçar as receitas (poucas) que vinham dos adicionais às contribuições do Estado.

Não raras  vezes colocava-se em último plano o despacho de pedidos legítimos das freguesias só porque nelas dominava uma fação política adversa  (isto é um espelho dos dias de hoje).

Outras vezes negava-se aos funcionários camarários o pagamento dos seus salários somente porque eles não eram da simpatia do edil (Presidente da Câmara), “hoje utiliza-se o procedimento disciplinar”. Ou ainda porque o funcionário militasse num qualquer partido da oposição.

Estas e outras situações trouxeram prejuízos ao concelho, privando-o de melhoramentos importantes que poderiam à data ter contribuído para o bem-estar dos Pampilhosenses.

Em 1910, proclamou-se um novo Regime Político “A REPÚBLICA”.

Esta proclamou-se sem grande oposição em Pampilhosa da Serra, como não poderia deixar de ser, este movimento entrou em Pampilhosa da Serra quase em silêncio e depois de conhecido criou-se grande efervescência e começou contra o CLERO (Igreja), a partir de 1912 a instabilidade instalou-se, começaram conflitos que se tornaram inultrapassáveis. Aumentaram os ódios as desinteligências, o bom senso foi erradicado e a Pampilhosa da Serra tornou-se num inferno.

Com o novo regime, somou-se a adversidade política, a inimizade pessoal a intranquilidade constante, perseguiam-se e caluniavam-se as pessoas, atentava-se ao bom nome das pessoas, gozavam-se e expulsaram-se membros do clero, demitiram-se funcionários públicos sem a instauração dos respetivos processos disciplinares, criou-se uma imagem da Pampilhosa da Serra de tal forma degradante que o Governo da República transformou-a em lugar de DEGREDO para alguns indesejáveis que o Governo queria ver fora de Lisboa.

Num artigo publicado no Jornal de Arganil em maio de 1913 o Dr. Alberto da Veiga Simões dizia: “Esta burla constitucional em que vivemos não pode continuar o povo tem de ser chamado a gerir destinos, da administração local porque tudo o mais que neste país se está vendo não é já radicalismo de algibeira mas uma politiquice descarada”.

Não demorou pois que em Pampilhosa da Serra surgisse um clima político pouco recomendável. O reduzido número de Pampilhosenses que se julgavam fadados para mandar dividiu-se em grupinhos facciosos e intransigentes.

Ficaram por certo alguns que se abstiveram de intervir na atividade política, mas neste breve apontamento fica-nos o mau exemplo para as gerações futuras (se existirem), este mau exemplo que nos foi sendo paulatinamente entregue ao longo de centenas de anos.

Com certeza este não foi o melhor exemplo para os políticos locais que iniciaram o seu trajeto em princípios dos anos 80, mas pelos seus atos não ficam fora de comparações com os políticos do passado.

Por: Anselmo Gonçalves, Deputado Municipal em Pampilhosa da Serra eleito pelo Partido Socialista.

 

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