"Eu próprio desconhecia que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tinha raízes familiares no território que hoje integra o município da Pampilhosa da Serra, aliás, nem sabia que a sua mãe era da Covilhã,..."

"Eu não fazia ideia que o avô paterno do Zé Pedro era da Pampilhosa da Serra, e isso foi uma grande surpresa para mim"


Nuno Miguel Marques Barata-Figueira veio ao mundo, a 23.08.1977, numa maternidade em Lisboa, mas os seus pais e avós nasceram na aldeia dos Padrões, na freguesia da Portela do Fojo.

É jurista de profissão, sendo licenciado em Direito pela Universidade Autónoma de Lisboa (UAL).

É sócio da Academia Portuguesa de “Ex-Líbris”, da Associação de Antigos Alunos da UAL, da Associação de Juristas de Pampilhosa da Serra, da Associação de Melhoramentos de Padrões, da Associação dos Amigos da Torre do Tombo, da Associação Portuguesa de Genealogia, da Casa da Comarca da Sertã, da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, do Colégio Brasileiro de Genealogia, do Instituto Português de Heráldica e da Real Associação de Lisboa, tendo já ocupado diversos cargos nalgumas destas associações, destacando-se a de redactor da revista genealógica “Raízes & Memórias”.

Também é um activo regionalista, tendo já ocupado o cargo de Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da Associação de Melhoramentos de Padrões, de Secretário da Direcção e de Secretário do Conselho Regional da Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra e de Relator do Conselho Fiscal da Associação de Juristas de Pampilhosa da Serra, sendo, actualmente, Vice-Presidente da Direcção da Casa da Comarca da Sertã.

Possui um vasto leque de publicações na revista “Raízes & Memórias”, sendo dos mais conhecedores nesta área, nomeadamente no nosso concelho.

Depois desta pequena introdução passemos à entrevista.


SerrasOnline – De onde lhe vem o gosto pelo estudo da Genealogia?

Nuno Barata-Figueira – Uma vez disseram-me uma frase que nunca esqueci «Ninguém se torna genealogista, nasce-se genealogista.». De facto, esta frase “encaixa-se em mim que nem uma luva”, pois lembro-me de me interessar pela Genealogia pelo menos desde os 10 anos de idade. E a maior parte dos Genealogistas com quem convivo interessa-se pela Genealogia desde tenra idade. É um passatempo que se entranha e do qual nunca mais nos libertamos… Começamos por querer saber os nomes dos nossos antepassados, depois os locais e datas do nascimento, do casamento e do óbito, daí saltamos para os dados biográficos, passando para os ramos colaterais da família, acabando no gosto pela História Local, pela Etnografia e pelo Turismo Genealógico.

 SerrasOnline – Turismo Genealógico?! O que é isso?

Nuno Barata-Figueira – O Turismo Genealógico consiste na particularidade de querermos visitar, e conhecer, as localidades onde nasceram, viveram e morreram os nossos antepassados. Já dei por mim a percorrer estradas de terra batida, nomeadamente na Pampilhosa da Serra, só para encontrar aldeias desaparecidas, e nas quais, por vezes, ainda consigo identificar em concreto as casas dalguns dos meus antepassados

SerrasOnline – Qual a importância da Genealogia na vida dos cidadãos comuns?

Nuno Barata-Figueira – A maior parte dos cidadãos desconhece por completo a sua genealogia, sabendo o nome completo dos seus pais e o primeiro nome dos seus avós. Portugal é um país onde a maioria não nutre grande interesse pela Genealogia, existindo um certo preconceito para com esta Ciência, pois muitos pensam que a Genealogia serve só para o estudo de famílias nobres. Ora, isso é um estigma que não faz qualquer sentido, pois todos nós temos na nossa árvore de costados um pouco de tudo.

SerrasOnline – É um trabalho solitário e de “rato de biblioteca”. Como arranja tempo para conciliar estes estudos com a vida familiar, pessoal e profissional?

Nuno Barata-Figueira – Pelo menos para mim, a investigação genealógica nunca foi um trabalho solitário. Durante alguns anos, no âmbito da minha pesquisa, frequentei o Centro de História da Família de Lisboa, onde estavam disponíveis os microfilmes dos assentos paroquiais de baptismo, casamento e óbito das paróquias portuguesas, fonte primária da Genealogia. Esse local era frequentado por diversos genealogistas. Nesse local, além da pesquisa, era habitual a conversa entre os seus diversos frequentadores. Aliás, a pesquisa genealógica avança mais depressa quando há troca de dados. Por vezes, até organizávamos viagens ao Arquivo da Universidade de Coimbra e ao Arquivo Distrital de Castelo Branco, indo em grupo. E a maior parte dos então frequentadores do Centro de História da Família de Lisboa eram sócios da Associação Portuguesa de Genealogia (APG), a qual organiza um jantar-tertúlia mensal, no qual, além de comermos, aproveitamos para conversar sobre a temática e trocar elementos. Quanto ao tempo gasto nestes estudos, o tempo utilizado gere-se como em qualquer outro passatempo que leve uma pessoa a sair de casa para ir, por exemplo, à pesca ou ao futebol, e que nesses momentos não está nem com a família, nem a trabalhar (aliás, quando estou no exercício da minha actividade profissional, não tenho por hábito fazer investigação genealógica). Nos dias de hoje, a investigação genealógica pode ser feita em casa (sobretudo no que toca à consulta dos assentos paroquiais), através da consulta online, não havendo um afastamento físico da família.

SerrasOnline – Das suas inúmeras publicações, qual foi a que lhe deu mais gozo produzir?

Nuno Barata-Figueira – Pelo menos três publicações deram-me um particular gozo, mas como duas delas estão abrangidas nas perguntas seguintes, destaco o artigo «Os Dias Barata Salgueiro da Madeirã – As Raízes duma Família do Antigo Termo da Vila de Álvaro». Isto porque no seio da família Barata Salgueiro sempre houve uma grande confusão sobre quem foi o Dr. Barata Salgueiro que emprestou o seu nome a uma rua da cidade de Lisboa. Nesta publicação de 59 páginas, onde ficou arrumada a genealogia destes três apelidos e ter visto esclarecidas algumas dúvidas sobre esta família, teve o mérito de ser feita sem recurso à fonte primária da Genealogia – os assentos paroquiais – pois estes não existem devido a um incêndio ocorrido na igreja matriz de Álvaro em 1891.

SerrasOnline – Conte-nos resumidamente como foi descobrir que o músico Zé Pedro dos “Xutos & Pontapés” tem origens na Pampilhosa da Serra?

Nuno Barata-Figueira – A Produtora Valentim de Carvalho comprou o formato dum programa com muito sucesso há vários anos nalguns países, o «Quem É Que Tu Pensas Que És?», para passar na RTP1. Esse programa semanal, com oito episódios, consistia em investigar a genealogia de oito figuras públicas portuguesas das mais diversas áreas e, para tal, a produtora contactou a APG para as investigações. Logo no primeiro programa, dedicado ao Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Pontapés, constatou-se logo que o seu avô paterno era natural da vila da Pampilhosa da Serra e, a partir daí, a Direcção da APG, a qual eu integro, pediu-me para tratar desta parte da investigação. Eu não fazia ideia que o avô paterno do Zé Pedro era da Pampilhosa da Serra, e isso foi uma grande surpresa para mim. Aliás, nem o próprio Zé Pedro sabia que o seu avô era de lá. No final das gravações ele contou-me que no início dos anos 80 os Xutos & Pontapés foram à Pampilhosa da Serra actuar e no final do espectáculo uma pessoa tinha ido ter com ele dizer-lhe que eram primos e ele não ligou nenhuma a isso, pois não sabia que tinha raízes familiares ali.

SerrasOnline – Muita gente desconhece que o nosso actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem origem na nossa região. Provavelmente o mesmo também o desconhecia. Como o descobriu?

Nuno Barata-Figueira – Eu próprio desconhecia que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tinha raízes familiares no território que hoje integra o município da Pampilhosa da Serra, aliás, nem sabia que a sua mãe era da Covilhã, pois as principais referências familiares que tínhamos dele eram minhotas. A ideia para esta investigação genealógica partiu do Luís Cardoso de Menezes – co-autor, comigo, em vários estudos genealógicos, nomeadamente no já referido «Os Dias Barata Salgueiro da Madeirã» – o qual teve esta ideia quando estávamos a voltar duma reunião com a Junta de Freguesia de Fátima, a qual nos tinha adquirido 300 exemplares do nosso último livro «O Núcleo Familiar dos Três Pastorinhos», que ocorreu no rescaldo das eleições presidenciais. Um dia, o Luís mostrou-me os apontamentos que tinha investigado naquela tarde na Torre do Tombo e lá constava um Francisco Antunes José, nascido em “Viduais” de Cima, e percebi logo que se tratava de Vidual de Cima. A partir daí contactei o Rui Faísca Pereira e o Joaquim Eurico Nogueira, dois genealogistas também com raízes familiares na Pampilhosa da Serra, que nos ajudaram neste ramo.

SerrasOnline – A mesma pergunta a respeito da Amália Rodrigues?

Nuno Barata-Figueira – Quanto à Amália Rodrigues, tive conhecimento que a bisavó materna dela era do Cabril através da obra «Fotobiografias do Século XX», onde numa das páginas finais vinha uma árvore de costados da autoria do genealogista Lourenço Correia de Matos. Contudo, a ascendência pampilhosense não era desenvolvida. Vim depois a descobrir um artigo publicado no jornal albicastrense “Reconquista” onde a sua genealogia estava um pouco mais desenvolvida, desta vez pelo genealogista António da Graça Pereira. A partir daí desenvolvi um pouco mais a investigação e descobri parentescos muito interessantes, pois a partir dum casal que no século XVII vivia no Cabril descendem Amália Rodrigues, Tony Carreira, Rita Redshoes, Zé Pedro, Marcelo Rebelo de Sousa, Henriques Gaspar e outros.

SerrasOnline – Aproveitando um pouco para brincar. Oliveira da Figueira que aparece nos livros do Tim Tim ainda é seu antepassado ou é apenas uma coincidência?

Nuno Barata-Figueira – As únicas coisas em comum são o facto de termos nascido na cidade de Lisboa e do último apelido ser o mesmo. Aliás, Oliveira da Figueira é um personagem de ficção criada pelo belga Hergé, e desconheço sequer se foi inspirado em alguém verídico.

SerrasOnline – Pensa que seria útil existir um programa de televisão dedicado a esta temática? Aliás já houve, mas foi descontinuado.

Nuno Barata-Figueira – Na minha óptica sim, mas eu sou suspeito! Nos restantes países do Mundo onde passa o programa «Quem É Que Tu Pensas Que És?» este dura há anos e é um grande sucesso. Portugal é o único país, que eu saiba, onde este programa não passou da primeira série, não obstante a aceitação do público. Mas o que manda na televisão é a “guerra” das audiências e o grande público prefere reality-shows.

SerrasOnline – Sabendo que se dedica Genealogia, faz estudos de árvores de costados para quem lhe solicitar? Sabendo que é um processo moroso, são acessíveis do ponto de vista monetário ao cidadão comum? Onde o poderão encontrar para lhe fazer o pedido?

Nuno Barata-Figueira – Não faço da Genealogia a minha profissão, nem tiro daí qualquer provento económico. Às vezes faço, por iniciativa própria (ou até mesmo a pedido) a investigação dalgum ramo para algum amigo ou conhecido, nada de complexo, apenas algo simples e pro bono, claro. Quando alguém me procura para uma investigação genealógica, poderei dar umas breves noções de como o próprio poderá fazer a sua investigação ou, caso prefira, recomendo um genealogista profissional de confiança. A investigação duma árvore de costados até aos quintos-avós poderá demorar até meio ano e poderá não ficar muito barato, mas garanto que é um valor merecido, pois trata-se duma investigação que dá bastante trabalho.

SerrasOnline – São conhecidas as suas colaborações no regionalismo, nomeadamente na CCPS e na Casa da Comarca da Sertã. Acha que o regionalismo actual tem futuro, ou terá de mudar o paradigma, acompanhando os novos tempos, se quiser ter futuro?

Nuno Barata-Figueira – O regionalismo tem que acompanhar as mudanças e adaptar-se. No início, as casas regionais eram pontos de encontro dos seus patrícios que, por motivos económicos, tinham abandonado a sua terra natal. Hoje em dia, estas casas regionais terão que saber atrair, não só os naturais das suas terras de origem, como também os descendentes. Se isso for alcançado, através de iniciativas que consigam atrair esse público, parece-me viável a continuação das casas regionais. Mas penso que se pode e deve ir mais longe e atrair, também, os que não são, nem naturais da zona a que a Casa diz respeito, nem descendente, servindo como ponto de divulgação e de “embaixada”, permitindo alargar o leque de associados, sem os quais não vale a pena qualquer associação existir.

 

0
0
0
s2sdefault