"Nós, oriundos do Concelho, sentimos um orgulho enorme pela sensação de felicidade dos nossos queridos companheiros. E breve voltaremos todos porque dar amor e ser solidário é oferecer o nosso tempo a uma causa nobre." 


Fernando dos Anjos Alves Antunes nasceu em Lisboa, mas apenas com 2 anos foi viver para a Ramalheira, pequena aldeia da Freguesia de Pessegueiro, onde ainda hoje tem o coração.

Retorna a Lisboa com apenas 8 anos de idade, não sem antes ter iniciado a escola primária na aldeia do Carvoeiro. Nas férias escolares, regressava sempre à aldeia, que começava já a ser um autêntico "porto de abrigo".
Escritor ocasional, foi o seu livro "O Guardião", que mostrou os dotes deste pampilhosense por afinidade, ao descrever a guerra na Guiné, onde passou 2 anos de serviço militar.
Desenhador técnico, bancário, empresário na área automóvel, onde criou uma empresa com o irmão, até à política, fez de tudo um pouco.

Atualmente é Lion, sócio da associação Lions CLubs International, é sócio fundador do Lions Clube Lisboa-Belém, fundado em 2 de Abril de 1993.

SerrasOnline News - Comecemos pelo mais simples. O que aconteceu para ir com 2 anos de idade para a Ramalheira?
Fernando Antunes - Bom, primeiro quero agradecer terem-se lembrado de mim para ser entrevistado que é uma honra dar o testemunho de parte da minha vida para os muitos amigos da Pampilhosa.
Nasci em Lisboa, mas quando tinha cerca de dois anos, nasceu a minha irmã Isabel e, naquela altura presumo que não era fácil para a minha mãe, pois o meu pai era Monitor nos Correios e tinha também um pequeno comércio, deixado pelos meus avós paternos que entretanto tinham morrido.
Os avós maternos estavam sozinhos e faziam pressão para que eu fosse viver com eles, pois a minha mãe tinha casado e o meu tio Silvério tinha ido para a tropa e eram os únicos filho.
Conjugando-se estes elementos decidiram e bem que eu iria viver com os meus avós, num momento em que não havia energia elétrica, não tínhamos água canalizada e tínhamos caminhos e estradas para carros de bois, mas com uma linda ribeira.  

Aldeia da Ramalheira

SerrasOnline News - Acreditamos que o regresso a Lisboa para uma criança com 8 anos não será de todo confortável. Tem memórias desse tempo?
F. A. - Sim, não foi fácil. Um miúdo da província, ingénuo e puro como a natureza, entrar com oito anos numa Escola de um Bairro bastante competitivo e desenvolvido para a época.
A minha sorte foi também a entrada de um miúdo da mesma idade, filho de imigrantes italianos, o Domenico, um companheiro de carteira e amigo para a eternidade, que nos suportávamos um ao outro e assim começámos a nos integrar no grupo escolar.
As brincadeiras no recreio e depois da escola os jogos de berlindes e da bola de trapos ajudaram muito na criação de mais amigos e na dissolução das diferenças emocionais. E nesse tempo já o meu pai era um comerciante muito considerado e respeitado pois era dono de uma das maiores leitarias, de natas e manteiga, de Lisboa. Tudo teve influência, mesmo junto da instituição escolar...

SerrasOnline News - Que  sentimentos o assaltavam com a aproximação das férias escolares?
F. A. - Quando estavam a acabar as aulas, eu estava 'em pulgas' para ir para a Ramalheira, para estar à solta como um cabritinho aos saltos, ou ia de boleia, muito raro ou de comboio que não era fácil o percurso, mas lembro-me perfeitamente do meu pai me levar a Santa Apolónia, apanhava o comboio para Coimbra, toda a noite, em Coimbra apanhava outro comboio para mudar para a estação do centro da cidade, onde apanhava outro comboio até Serpins e aqui saltava para a carreira que percorria serras e vales até as Moradias onde, por vezes, o meu avô me esperava com o cavalo, ou ia a pé, durante uma hora, subindo e descendo o monte até à Ramalheira.
Era indescritível a emoção de estar a chegar, de abraçar os meus avós, cheios de saudade, e ver os meus primos, filhos do irmão do meu avô, que alguns tinham quase a minha idade...

SerrasOnline News - Na Ramalheira, como se preenchia o tempo nessa época?
F. A. - Quando era criança, a maior parte do tempo passava-o na ribeira, com os meus primos e amigos, muitas vezes nem vínhamos comer a casa, ficávamos por lá comendo pêssegos, uvas e maçãs. Havia fruta por todo o lado e ninguém barafustava connosco por colhermos qualquer tipo de fruta, alguma caía para a água. Estava na minha praia!
Pescávamos peixes e trutas e trazíamo-los pendurados num junco.
Quando tinha mais uns anitos, eu e o meu primo Armando levávamos as ovelhas e cabras do meu avô e do pai dele, para a ribeira e para os monte. Nunca nos cansávamos deste trabalho de pastor, mas por vezes perdíamos o gado. Lá tínhamos de estar à escuta dos chocalhos ou sinos para corrermos ao seu encontro.
Também ajudava em alguns trabalhos agrícolas e ao cavalo e aos bois.
Depois dos quinze anos fazíamos bailaricos na Ramalheira ou no Carvoeiro, uma flauta era o pretexto para fazermos um baile, depois veio uma concertina, aí foi outra música...
Tempos dourados que os jovens de altura adoravam...
Mas havia muita pobreza também e as pessoas, no fim da década de 60, criaram outra mentalidade de viver e a Ramalheira foi perdendo os seus filhos que partiam ou para Lisboa ou para a França, para a Venezuela ou para o Brasil ou para a Argentina, onde procuravam melhores condições de trabalho e de rendimento familiar, o que muitos conseguiram com muito esforço e com a esperança de um dia voltarem.  

SerrasOnline News - Ficaram amigos desse tempo?
F. A. - Sim, ficaram alguns amigos desse tempo porque os bailes uniam mais os jovens locais e aqueles que vinham de férias da escola, de Lisboa. Eram vários os rapazes e as raparigas, principalmente nos bailes que fazíamos no Carvoeiro. Naquela época estar na Ramalheira ou no Carvoeiro, era como estivéssemos em casa, éramos muito estimados.
Algumas amizades foram feitas com a música e com o baile. A amizade criada na juventude ficou para sempre...

SerrasOnline News - E hoje como é a Ramalheira?
F. A. - Alguns amigos regressaram à pequena e simpática povoação, entre montanhas, com as casas salpicadas  pela encosta abaixo, soalheira, com uma ribeira a seus pés, onde podemos pescar ou nadar numa pequena piscina que a Comissão de Melhoramentos, da qual foi o primeiro presidente da Direção e atualmente é o meu primo Carlos da Cruz, está a concluir.
Nos últimos anos, confirmando as sólidas capacidades financeiras dos atuais proprietários, tem-se construído e recuperado várias casas de habitação.
É uma linda aldeia a meio caminho da sede da Freguesia de Pessegueiro e da Vila da Pampilhosa.
A maior grandeza do ser humano é fazer a amizade que é mais difícil e mais rara que o amor. Temos de preservá-la e saudá-la como tal...

SerrasOnline News - Já um "homem feito", como acontecia com muitos, foi mobilizado para a Guiné. Foi tranquila a ida para o Ultramar?
F. A. - Eu tinha 20 anos quando entrei para a tropa e fui para a Guiné com 21 anos, donde regressei com 23 anos. Era um jovem como muitos, ainda mais novos, que deixaram de viver a sua juventude, mas depois de regressarmos, nunca mais seríamos os mesmos jovens, a guerra modificou-nos, ficámos mais sensíveis...
Eu fui como numa Missão por Portugal, é a nossa História e não nos podemos envergonhar, poderemos é criticar o rumo que se tomou e poderia ter salvo muitas vidas e eu estou aqui por acaso, poderia não estar.
Não era uma questão de sermos obrigados ou não ir, em Portugal nunca se questionava o recrutamento para a tropa porque era obrigatório. Agora já não é, como sabemos.
Os militares eram mobilizados, houve alguns voluntários e outros ausentaram-se do país para fugirem à guerra, mas muitos acreditavam e ainda hoje acreditam que fazia parte de Portugal porque o sistema político em que se vivia dava muito ênfase à história imperial.
Toda a gente considerava a guerra da Guiné a pior porque era mais de guerrilha, dispara ou ataca e foge...
Por isso não posso dizer que a minha ida foi tranquila porque tanto a minha família como de muitos militares, ficavam num grande sofrimento, pois na Guiné morreram 2.240 heróis, sem contar com os mutilados, causado pelas minas. As famílias sabiam que alguns não regressavam, muitos ficaram por lá, enterrados ou abandonados em solo africano.  

SerrasOnline News - Sabemos que utilizou  experiência militar para escrever um livro. Como surgiu essa ideia?
F. A. - Sim, a especialidade como Informações e Operações, junto do Comando, deu-me muitos conhecimentos e dados sobre as nossas tropas e do PAIGC que poderiam ser úteis para escrever e dar conhecimento do que vivi e também ajudei a escrever a História da Unidade, do Batalhão, que foi confidencial durante alguns anos.
A ideia surgiu quando nasceu o meu neto Tiago, ele deu-me forças intrínsecas para iniciar a escrita daquilo que já tinha na cabeça e pela Dedicação que fiz no livro será suficiente para compreenderem melhor:
"Dedico às mães, aos pais, aos irmãos, às esposas, às namoradas, e aos amigos que acompanharam à distância e com angústia, os militares no Ultramar, sempre com a esperança do seu regresso.
À memória dos heróis que caíram pela minha amada Pátria e abandonados, do qual me envergonho, enterrados longe do luto da dor, do grito das famílias.
À Tina que sempre me entusiasmou.
Ao Paulo e à Patrícia que me deram o Tiago que acabou de aparecer neste mundo e irá conhecer a mensagem do avô e, quando for adulto, saiba viver com dignidade, com paixão e generosidade para com os outros e com a força do amor, adore o lugar onde viva e repare na sua beleza, não se deixe levar pelo supérfluo, e viva num mundo justo e sustentável.
Ao jornalista Domenico Conte que foi o primeiro a ler o meu rascunho.
Ao General José Fernando Valles de Figueiredo Valente, um homem íntegro, ao qual pudemos confiar, de boa fé, a nossa vida, foi o meu comandante na Guiné, o Guardião."
Estas são as principais razões do surgimento do meu livro 'O Guardião' e que ao relê-las mexem comigo.  

SerrasOnline News - Fale-nos um pouco do livro "O Guardião"!
F. A. - Escrevi esta história, baseada em factos reais, com alguma ficção, principalmente no discurso direto.
Os dados estatísticos e nomes são baseados na minha memória, na História da Unidade, no Jornal da Unidade, no qual participei, na Ordem se Serviço do Comando Territorial Independente da Guiné, no livro Portugal e o Futuro, numa Enciclopédia, nos testemunhos e nos meus conhecimentos, à priori e à posteriori, do teatro da guerra e são mesmo reais.
É a minha história, pois cada um de nós tem a sua, uma visão dos acontecimentos de acordo com a posição que ocupa no tabuleiro de xadrez da guerra, cuja história tem elementos para a própria História de uma Nação em que todos nós participámos e que muitas vezes não somos capazes de passar a escrito.
Viveu-se um período traumático para os vários Povos que ainda hoje tem reflexos psicológicos, culturais e sociais entre brancos e pretos.
O livro 'O Guardião'
Narra a despedida, no cais da Rocha de Conde de Óbidos, num dia de verão de finais de setembro, os choros do último adeus e a partida do paquete Uíge.
A viagem e a batota no convés e a tempestade no mar alto.
A chegada ao largo de Bissau, o transbordo para lanchas LDG, debaixo de um calor húmido e sufocante.
A subida do Rio Geba até Bolama onde decorre a formação de Instrução Militar Operacional, em instalações degradáveis, com uma intoxicação à mistura e vários helis a transportar alguns militares para o Hospital Militar de Bissau.
A vida em Bolama.
A entrada na Zona operacional, com sede em Tite.
A Ação Psicológica de Spínola, o potencial militar dos dois lados e o encontro, o confronto, os Golpes de Mão e os prisioneiros.
O papel da Milícia e a sua integração nas tropas oficiais.
As emboscadas e os feridos e mortes.
O Assalto a Conakry. Spínola e a sua tentativa de diálogo com o PAIGC.
As obras e o resultado da Ação Psicológica do General Spínola.
A hora da despedida, os sentimentos... E o fim, no avião Boeing 707.
Tento dar uma ideia do que se passou na nossa Zona de Combate, algumas situações reais de combate, a evolução de uma Guiné Melhor, as dúvidas, as reações da população, a moral das nossas tropas.
É um marco histórico das nossas vidas, de dar testemunho e fazer sentir aos nossos netos e familiares alguns 'valores sociais' que devem ser preservados.
A grandeza do ser humano não consiste na sua superioridade ou fama, mas sim na sua personalidade, marcada por ações de bondade e amor.

SerrasOnline News - No presente é Lion. Aconteceu por acaso ou foi algo com que sonhou?
F. A. - Aconteceu do nada, um punhado de amigos Comandos lembrou-se de criar um Clube Lions e convidaram-me assim como ao meu irmão para pertencermos aos fundadores do Lions Clube de Lisboa Belém.
Tomámos conhecimento dos procedimentos, dos objetivos e da missão.
Um Clube padrinho adotou-nos, com um Lion orientador, e fundámos o Lions Clube Lisboa Belém, com trinta sócios, em 2 de Abril de 1993.
E foi uma das decisões mais estimulantes da minha vida, Servir a Comunidade.  

SerrasOnline News - O que é ser Lion?
F. A. - Ser Lion é criar e fomentar um espírito de compreensão entre todos os povos para atender às necessidades humanitárias, oferecendo serviço voluntário através do envolvimento na Comunidade e da cooperação internacional.
SER o líder global em serviços comunitários e humanitários.
Um Lion tem como objetivos: - Criar e fomentar um espírito de compreensão entre os povos da terra; Incentivar o estudo e a prática dos princípios de bem governar e de elevada educação cívica; Interessar-se ativamente pelo bem-estar cívico , cultural, social e moral da comunidade; Unir os sócio com laços de amizade, bom companheirismo e compreensão recíproca. Promover um Fórum para livre e ampla discussão dos assuntos de interesse público, excetuando o partidarismo e o sectarismo religioso; Incentivar as pessoas com espírito de Serviço a ajudarem desinteressadamente as suas comunidades, estimular a eficiência e promover elevados padrões éticos nas profissões, indústrias e serviços públicos.  

SerrasOnline News - Qualquer um pode ser Lion?
F. A. - Sim, qualquer um pode ser Lion desde que que queira ser solidário com a comunidade e tenha perfil de partilhar, pois para partilhar não necessitamos de ser abastados, basta dar o nosso tempo, a nossa ajuda, o nosso amor aos outros que estão necessitados.  

SerrasOnline News - Os valores de que nos fala, estão ao alcance de todos, como se verificam a presença desses valores numa pessoa?
F. A. - Os valores do lionismo estão ao alcance de todos, mas há alguns procedimentos e regras que são colocadas ao novo hipotético sócio, além do espírito de serviço que adiantei atrás, como ter de assistir a algumas reuniões e Assembleias Gerais de Sócios, saber os Objetivos a que nos propomos, pagar uma quota semestral, e guiar-se pelo nosso Código de Ética:
Honrar a minha profissão, dignificando-a e impondo-a ao respeito alheio.
Lutar pelo êxito da minha atividade profissional, aceitando toda a remuneração ou vantagem que equitativa e justamente mereça, recusando, porém, qualquer vantagem conseguida à custa da minha dignidade ou de consciente transigência moral.
Ter sempre presente em mente que para triunfar não é necessário prejudicar o próximo.
Decidir contra mim no caso de dúvida quanto ao direito ou à ética dos meus atos, devendo ceder, ainda que exerça um direito, a quem pretenda evitar um prejuízo.
Cultivar a amizade como um fim e não como um meio, acreditando que ela não resulta de favores mutuamente prestados, mas sim de sentimentos espontâneos que não encontram retribuição senão na própria amizade.
Ter sempre presente os meus deveres para com Deus e a minha Pátria, sendo-lhes sempre leal em pensamentos, palavras e obras, dedicando-lhes, desinteressadamente, o meu tempo, o meu trabalho e os meus recursos.
Estar sempre pronto a ajudar o próximo, a consolar o aflito, a fortalecer o fraco, a socorrer o necessitado e a amparar o humilde.
Ser comedido na crítica e generoso no elogio.
Construir e não destruir.
Servir e não servir-se.
Depois do proponente a sócio considerar que tem as condições para integrar um Clube Lions, dará entrada numa Assembleia Geral, na presença de todos os Sócios, que terminará com a leitura do nosso Código de Ética.

SerrasOnline News - Lions Clube Lisboa-Belém, o que são e qual o fim de tal grupo?
F. A. - O Lions Clube Lisboa Belém é uma Associação de 53 sócios, somos um dos maiores Clubes de Portugal, a média de sócios por Clube, está entre 20 a 25 Sócios.  
Todos os Clubes pertencem ao Lions Clubs International (LCI) que é a maior ONG mundial de Clubes de serviço voluntário, com mais de 100 anos, nascida em 1917 nos EUA, atuando através do envolvimento comunitário e cooperação internacional com mais 1.400 milhões de sócios que trabalham juntos para responder às necessidades que desafiam as comunidades, e que neste momento, agrupam-se em mais de 47.000 Clubes, espalhados por 210 países e regiões. Temos representação nas mais importantes Organizações Internacionais, tais como na ONU, UNICEF, ECOSOC, UNESCO, FAO, Comité de Uso de Substâncias e Narcóticos, OMS e Conselho da Europa.
Os Lions atuam em várias frentes através do voluntariado sem qualquer ligação política ou religiosa. O lema dos Lions é “NÓS SERVIMOS”, e a nossa missão é servir a comunidade e atender às necessidades humanas, fomentando a paz e promovendo a compreensão mundial através dos Lions Clubes. Os sócios organizam-se em clubes para servir as comunidades em 5 áreas de serviço: Diabetes, Visão, Fome, Meio Ambiente e Cancro Pediátrico.
O LCI e a nossa Fundação (LCIF), já ajudaram Portugal com mais de € 700.000 em catástrofes recentes como as da Madeira, Pedrogão Grande entre outras, e ainda para a aquisição de material hospitalar, agora com a COVID19, cerca de  € 100.000, e construção de lares para jovens e idosos.
E agora com o COVID19, recebemos da Fundação Lions 100 mil dólares para comprar ventiladores que distribuímos por 11 hospitais públicos.

SerrasOnline News - Qual o panorama no nosso País em  Portugal há muitos Clubes Lion?
F. A. - Em Portugal o movimento teve o seu início em 1953, sendo que atualmente somos cerca de 104 clubes e 2878 associados espalhados de norte a sul e regiões autónomas, agrupados no Distrito Múltiplo 115 (DM115). Além dos Clubes formados por Lions, existem os Leo Clubes formados por jovens entre os 12 e 30 anos, existindo atualmente em Portugal cerca de 15 clubes Leos.

SerrasOnline News - Lions Clube Lisboa-Belém. Pode falar  um pouco da vossa história?
F. A. - O Lions Clube Lisboa Belém (LCLB) foi fundado em 4 de Abril de 1993, tendo nesta data 53 associados, inclui ainda um Leo Clube com 11 Jovens associados; é o maior dos 10 Clubes de Lisboa e um dos maiores de Portugal.
Foi Organizador de duas Convenções Nacionais, a última das quais em 2009, no Centro de Congressos de Lisboa.
Ao longo dos 27 anos de existência do Lions Clube Lisboa Belém, contribuímos para melhorar a vida dos mais necessitados na nossa comunidade através de várias atividades, das quais destacamos as mais relevantes:
- A nível local:
1.    Participação na Loja Solidária da Freguesia de Belém (zona da sede do Clube, em Belém), onde as pessoas carenciadas e sem-abrigo se abastecem de roupas de toda a variedade e calçado;
2.    Participação na Feira da Saúde nos Jardins de Belém organizada pela Junta de Freguesia onde fazemos rastreios visuais, de audição, entre outros;
3.    Recolha de bens alimentares entregues a Instituições sociais Locais que servem mais de 150 famílias carenciadas e sem abrigo, na freguesia de Belém;
4.    Doação anual de cabazes de Natal a famílias carenciadas e identificadas pelo nosso LCLB;
5.    Ações permanentes de voluntariado: - No IPO e no Hospital S. Francisco Xavier;
6.    Atividades em instituições locais como no Centro da Sagrada Família e no Centro Hellen Keller;
7.    Construção do Pavilhão Lion para as crianças do IPO em parceria com outros clubes;
8.    Construção da Ludoteca do Hospital D. Estefânia em parceria com outros clubes.
- A nível nacional:
1.    Apoio anual à Associação de Pais e Amigos do Deficiente Profundo (Cacém), há mais de 20 anos, com donativos que já perfizeram o valor global de €100.000,00;
2.    Ambiente - Reflorestação de Portugal - Plantação de cerca de 5 000 árvores em Pampilhosa da Serra, em Oleiros, em Pedrogão Grande, em Mafra, na Serra da Carregueira e também na Serra de Cascais/Sintra, envolvendo centenas de Lions de norte a sul do País;
3.    Visão – Recolha em Portugal e Entrega de Óculos para Moçambique, Botswana, Malawi e outros países de Africa avaliados em mais de €200.000,00, são reciclados em Alicante e enviados a África;
4.    Outros eventos próprios ou em conjuntos com outros Clubes, relacionados com as principais causas do Movimento Lion: - Visão (recolha e/ou oferta de óculos e rastreios); - Diabetes (caminhadas e rastreios); - Cancro Pediátrico (espetáculos e a construção do Lucas para recolha de fundos para o IPO), - Fome (Recolha de alimentos e construção de cabazes solidários para oferecer a Instituições sociais ou pessoas carenciadas), - Meio Ambiente (plantações de árvores e apoios em situações de catástrofe naturais como os incêndios, etc.).

SerrasOnline News - E a nível global qual é a vossa principal atividade?
F.A. -  A visão é a principal Atividade da Associação Lions, Helen Keller nomeou-nos como os 'Paladinos dos Cegos' e o maior investimento tem sido no combate à cegueira reversível e a deficiência visual, por isso dou aqui um exemplo do que tem sido feito no mundo, pelos Lions, a favor das pessoas carenciadas e que necessitam de apoio oftalmológico.
A Lions Clubs International Fundation (LCIF) tem um programa SightFirst que restaura e protege a visão há já quase 30 anos e está presente em 102 países. Este programa extraordinário desenvolve sistemas abrangentes de tratamento oftalmológico, fornecendo ajuda a populações carenciadas.
Os projetos incluem a preparação de profissionais de oftalmologia e pessoal administrativo, melhorando as infraestruturas dos sistemas de oftalmologia existentes, o acesso à educação, à reabilitação de pessoas cegas ou de cegueira reversível ou com deficiência visual e aumentando a consciencialização das pessoas sobre a importância da saúde ocular.
Com o apoio da LCIF, lions e parceiros, o SightFirst concentra-se em desafios de atendimento oftalmológico em casos tão simples como um erro de refração não corrigido ou em algo tão complexo como é o caso de uma infeção bacteriana, como o tracoma, possibilitando aos Lions acabar com a cegueira evitável.

Aproximadamente 80% da deficiência visual global pode ser evitada. Como "Paladinos dos Cegos", os Lions levam essa estatística a sério e trabalham para melhorar a vida das pessoas que, em todo o mundo, correm o risco de perder a visão.
No Bukina Faso, um projeto SightFirst de dois anos fornece acesso aos serviços oftalmológicos em zonas onde este serviço não está acessível. Apoiados por um subsídio de US $ 110.746 da LCIF SightFirst, os Lions e uma organização local, One Dollar Glasses, fundaram quatro clínicas oftalmológicas onde os doentes fazem exames à vista sem qualquer custo para eles.
Além disso, os óculos são fornecidos a um preço muito mais baixo do que o seu valor de custo nos mercados locais ou até gratuitos para quem não pode pagar. Este projeto que começou em 2018, pretende atingir 124.000 pessoas e distribuirá 26.400 pares de óculos.

A SIGHT FOR KIDS começou apenas com alguns programas locais na Ásia, com o objetivo de fornecer às Escolas o máximo possível de atendimento médico, com tratamentos da visão, educação e consciencialização .
Nos últimos anos, graças a uma rede global de apoio entre os Lions locais, a LCIF ea Johnson & Johnson Vision, o programa "Visão para Crianças" cresceu de modo a abranger novas cidades na China, na Turquia e no Quénia.
Hoje acredita-se que o programa Visão para Crianças seja o maior programa de exames de visão em Escolas de todo o mundo. Localmente os Lions são os cuidadores e gestores do Programa.

Como já adiantei os Lions são os Cavaleiros, os "Paladinos dos Cegos", dedicados e determinados a acabar com a cegueira evitável ou reversível, em comunidades carente em todo o mundo.
Para uma visão saudável o Programa já atingiu mais dois milhões de crianças por ano e recentemente ultrapassou um total de 30 milhões de crianças já tratadas por este Programa, em 10 países, foram treinados e dada formação a mais de 170.000 professores e mais de 600.000 crianças tratadas através de óculos, sem custos e outros tratamentos de problemas de visão, nestes últimos dezoito anos de existência desta parceria com o apoio da Johnson & Johnson e sua experiência para criarmos comunidades mais saudáveis que permitam às crianças uma melhor oportunidade de sucesso na vida.

A Oncosarcose ou a Cegueira-dos-Rios é uma doença fatal que prolifera muito rapidamente nos rios, causada pela picada de moscas pretas infetadas.
O parasita causa intensa comichão, feridas, descoloração da pele e doenças dos olhos que podem levar à cegueira.
A Fundação Lions em parceria com o Centro Carter, desde 1994 e ao fim de 25 anos de trabalho, os Lions conseguiram eliminar totalmente a doença na Nigéria, oferecendo um futuro mais brilhante para o país que era o mais endémico.
A LCIF investiu mais de 59 milhões de dólares, cuidando dos programas para a cegueira e tracoma em toda a África e Américas.
Fez-se mais de 214 milhões de tratamentos, em 11 países, a OMS (Organização Mundial de Saúde) verificou que atualmente a Colômbia, o Equador, o México e a Guatemala estão agora livres da Cegueira-dos-Rios.

Assim os Lions estão a liderar a tarefa de livrar o mundo da cegueira evitável ou reversível e a deficiência visual e melhorar a qualidade de vida das pessoas com cegueira ou deficiência...

SerrasOnline News - Como se consegue tanto investimento?
F.A. -  Com donativos dos lions ou de outras pessoas, doados à Fundação Lions Internacional (LCIF).

SerrasOnline News - Sabemos que o Lions Clube Lisboa-Belém, já promoveu algumas ações em torno de Pampilhosa da Serra. Quer falar desse acontecimento?
F. A. - Sim, o nosso Clube Lions já fez três visitas ao nosso Concelho.
Na primeira visita levámos dezenas de Companheiros Lions, na perspetiva de apresentar um concelho do interior que muitos não conheciam e tínhamos curiosidade da sua reação.
Tendo como objetivo a Atividade do Meio-Ambiente e a plantação de árvores, a nossa intenção era também dar a conhecer as potencialidades que o Concelho nos oferecia.
Qual não foi o nosso espanto, digo nosso, porque no Clube somos cinco sócios oriundos do Concelho, ou sejam, eu e o meu irmão Carlos, o Anselmo Lopes e a Ludovina Lopes e a Fernanda Gaspar que estávamos empenhados no sucesso desta visita e ficámos maravilhados com as emoções dos outros Lions.
Esta primeira experiência, mesmo não tendo as melhores condições de acolhimento porque ainda não havia o hotel, foi superado pela receção dos pampilhosenses, pelo calor humano e pela disponibilidade dos representantes e responsáveis pela Área do Turismo, António Barata e Alexandra Tomé, que conseguiram criar um ambiente de franco convívio e também de trabalho das plantações realizadas.
Com a construção do Villa Pampilhosa, as outras visitas tiveram um aconchego e ambiente com mais requinte que muitos Lions apreciaram.
Entre as paisagens magníficas que fez transbordar de emoção os nossos companheiros Lions, os momentos musicais, a gastronomia em Fajão, as visitas à caprinicultura e queijaria do Sr. António Estevão, uma deslocação à Malhada do Rei e apreciar um crestar de colmeias foi um dos pontos altos de êxtase dos visitantes.  
E as emoções com as dádivas às Instituições Sociais que visitámos, como Bombeiros, Santa Casa, Lar Infantil, deixando um valor simbólico do nosso ser como Lion...

SerrasOnline News - Qual foi a sensação de levar outros Lions ao seu concelho?
F. A. - Bom, uma das Atividades que os Clubes Lions de todo o mundo têm a missão de realizar, anualmente, é a Atividade do Meio-Ambiente que se resume na preparação do terreno da área ardida ou desertificada, da limpeza, fazer as covas e plantar as árvores adquiridas e autóctones.
Como o Concelho tem sido flagelado periodicamente por incêndios e sendo alguns sócios da Pampilhosa, como já referi, pensámos realizar esta Atividade no nosso concelho e já o fizemos, como também já adiantei, por três vezes.
E poderei adiantar que já tínhamos programado mais uma visita, mas devido às contingências do COVID19, ficará para uma próxima oportunidade.
A sensação foi de expetativa e ao mesmo tempo de orgulho, depois de saber e de sentir que os nossos companheiros Lions têm uma adoração pelo nosso Concelho da Pampilhosa, talvez pelas pessoas, pela diversidade e pela natureza quase selvagem, pelos montes e serras esplêndidas de beleza natural e talvez também pela luz radiante das Barragens.
Nós, oriundo do Concelho, sentimos um orgulho enorme pela sensação de felicidade dos nossos queridos companheiros. E breve voltaremos todos porque dar amor e ser solidário é oferecer o nosso tempo a uma causa nobre.  

SerrasOnline News - Fale-nos da ação em concreto nomeadamente o contacto com o Bombeiros de Pampilhosa da Serra.
F. A. - Nós, Lions, temos uma ótima relação com os Bombeiros, eles são o elo de ligação entre a floresta e a sua defesa contra os incêndios e a favor do meio-ambiente.
Os Bombeiros são os cavaleiros da paz e na nossa terra onde são indispensáveis a qualquer tipo de socorro ou apoio, são imprescindíveis na nossa comunidade muito frágil, com muitas pessoas idosas.
Na nossa deslocação tivemos sempre o cuidado de levar uma lembrança para os Bombeiros, logo na primeira visita que fizemos à Vila e ás suas instalações, fomos muito recebidos pelo Presidente da Direção João Alves e pelo comandante Marco Alegre que nos mostrou e explicou um pouco da ação daquela Associação, da qual também sou sócio.
Em um dos jantares tivemos a oportunidade de confraternizar e oferecer quatro capacetes anti-fogo. Na segunda visita entregámos um donativo de 500 euros também para os Bombeiros e 300 euros para o Grupo Musical Fraternidade Pampilhosense que nos presenteou com um concerto magnífico, e para a Santa Casa, oferecemos eletrodomésticos para a cozinha.
Na última visita oferecemos aos Bombeiros da Pampilhosa da Serra, um desfibrilhador automático.
Penso que deixámos as melhores impressões junto dos Bombeiros assim como os estimamos e guardamos no nosso coração.  

SerrasOnline News - Sabemos também que nessa ação se promoveu uma visita ao CAT, de Dornelas do Zêzere. Na sua opinião, para além do sentido humanista, qual a importância de tais ações?
F. A. - Sim, visitámos o Centro de Acolhimento Temporário, rececionados pelos Presidentes da Associação, irmãos Manuel e Joaquim Isidoro, onde as crianças nos receberam com grande entusiasmo, principalmente depois de entregarmos várias ofertas, como uma bicicleta, uma tabela de basquete e outras.
É muito importante e gratificante esta partilha com a comunidade de Dornelas do Zêzere, pois o CAT vem dar mais apoio às famílias que necessitam de trabalhar ou de se ausentar durante o dia e assim têm um local de confiança onde podem deixar os seus filhos e receberem formação.
Viemos com o coração cheio...

SerrasOnline News - Levando em linha de conta o que foi feito no CAT de Dornelas do Zêzere, acha que o mundo pampilhosense entende com rigor o que fizeram?
F. A. - A obra está feita e os pampilhosenses têm de ser solidários com estas iniciativas e aproveitar estes projetos como grande valia para o Concelho.
Os Lions estão muito vocacionados para estas situações e conscientes do que a comunidade necessita.
Temos de pensar que a solidariedade é o principal remédio para diminuir a violência, a fome e a miséria.  
É um exemplo a seguir numa época de grande crise social e económica que se avizinha.  

SerrasOnline News - Que sentimentos trouxe, ou trouxeram dessa visita?
F. A. - Os sentimentos que trouxe da visita a Dornelas e da Associação Social, foi de tranquilidade e de bem-estar, bondade, por saber que aquela comunidade está a ser bem apoiada e acompanhada.
Sentimento de que ser solidário vale a pena, ao fazermos os  outros Felizes, nós também o seremos.
Só é feliz quem faz algo pelo seu semelhante porque limpa a alma.  

SerrasOnline News - Se não estamos em erro, nessa visita foi também apresentado um dos nossos melhores produtos locais, a aguardente de medronho. Qual foi  a reação dos outro Lions a este produto tão específico?
F. A. - Sim, foram apresentados vários produtos locais, entre eles o mel e vimos a crestar uma colmeia pelo sr. Hermínio, em Malhada do Rei, visitámos a queijaria, do Sr. Estevão de Machio, e depois da  grande plantação de medronheiros, acompanhada pelo Sr. José Martins que nos levou a um armazém onde tinha várias qualidades de aguardente de medronho, uma simples e outra com mel ou com menos álcool.
Foi uma experiência fantástica para os nossos companheiros que muitos desconheciam, e o produto
esgotou-se pela procura que teve e pelo entusiasmo pelo novo produto local.
E a visita continuou com muito convívio e solidariedade e amizade.  

SerrasOnline News -  Como Lion, o que lhe apraz dizer através do SerrasOnline News aos Pampilhosenses, principalmente aos que vivem no território?
F. A. - Por fim quero dizer aos amigos pampilhosenses que vivem no Concelho, que tenho por vós uma admiração imensa e respeito por os considerar como os últimos resistentes.
Sei que nunca desistiram de continuar no nosso Concelho, acreditando sempre em melhores dias , de qualquer modo devem lutar pelos vossos ideais.
Eu sei que não é fácil, mas a persistência é meio caminho para o êxito. Se precisarem de auxílio por qualquer situação que possam considerar crítica, não desanimem e não hesitem em pedir ajuda ou auxílio às instâncias locais que decerto vos acompanharão.
Os Lions também poderão ajudar em situações mais periclitantes, a nível social.
Aproveito também para agradecer ao SerrasOnline News, a oportunidade de dar esta entrevista.
Bem hajam!

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