Ao longo da nossa vida, todos temos anseios e aspirações legítimas, pelas quais devemos lutar. Mesmo que nos pareçam inalcançáveis, como costumam dizer vários provérbios populares, entre eles: “querer é poder”, quem não chora não mama”, etc, devemos lutar por eles se os queremos atingir.

Se lutarmos, poderemos ou não ganhar, se desistirmos e nos abandonarmos á lamúria, ao queixume e ao conformismo, pela certa perdemos.

Vem este pequeno intróito, a propósito da Ponte de Álvaro, que como a maioria sabe atravessa o rio Zêzere nos lugares de Lomba do Barco a Álvaro, ligando os concelhos de Pampilhosa da Serra e de Oleiros, cuja albufeira da barragem do Cabril separou em tempos.

Um grupo de cidadãos das serras da Pampilhosa juntaram-se, uniram esforços, formaram uma comissão não oficialmente constituída, estabeleceram regras internas para se gerirem a eles próprios. Iniciaram démarches junto das autoridades, demonstraram a justeza e a utilidade das suas pretensões e depois de anos de esforços conseguiram obter os seus intentos, sendo a ponte uma realidade desde 1983, contribuindo para uma ligação fluída entre dois povos e dois concelhos que o rio por força da mão do homem separou, sem dó, nem piedade. Se não houvesse bastas razões para esta construção, a simples redução de 100 para 30 Km entre Oleiros e Pampilhosa da Serra seria mais do que suficiente.

Aqui se apresenta um exemplo do que foi o regionalismo e deveria continuar a ser: unir e servir as comunidades. Temos algumas dúvidas que hoje em dia se conseguissem congregar e unir tantos esforços, sem a tentação de olhar apenas para o próprio umbigo e daí tirar dividendos.

A história completa da construção, é um trabalho que pretendemos realizar no futuro, mas por ser bastante extensa, deixamos aqui apenas algumas datas que foram marcantes nesta importante construção:

  • 1973 -Abriu-se o primeiro ciclo com a iniciativa de solicitar aos Serviços Florestais de Arganil a abertura de estradões entre Vale Serrão e Lomba do Barco, Maria Gomes e Lomba do Barco e Lomba do Barco à margem direita do rio, em frente a Álvaro, o que foi bem aceite pelo seu director, Eng.º Lino Teixeira.

Os trabalhos começaram em Dezembro de 1973 e terminaram em meados de 1974.

  • Em Fevereiro de 1975, realizou-se na Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, a primeira reunião entre elementos das Povoações de Álvaro e Gaspalha, Lomba do Barco, Maria Gomes e Vale Serrão, com a finalidade de constituir uma comissão, o que veio a acontecer.
  • Em Abril de 1975, realizou-se em Gaia, no restaurante "Karpa", um almoço/reunião, em que estiveram presentes o Eng.º Vasquez & Vasquez, representante da Hidroelétrica do Zêzere, entidade responsável pela passagem do rio em Álvaro.

Estiveram presentes nessa reunião Raul Lopes, David Lopes e João Mendes pela Lomba do Barco, Américo Pereira de Almeida por Álvaro/Gaspalha, José Martins por Vale Serrão e José Antunes Alves, Fernando Lopes e António Maria Antunes por Maria Gomes.

  • Em 13 de Janeiro de 1976, David Lopes contactou no Porto o Eng.º Vasquez & Vasquez, responsável pela manutenção da passagem do rio, providenciando uma vinda deste a Álvaro, o que aconteceu em 16 de Janeiro de 1976, (existe uma foto desse encontro no rio) com os Presidentes das câmaras de Oleiros, de Pampilhosa da Serra, vários populares, José Bernardo das Neves e David Lopes (Estes dois últimos em representação da comissão, já existente).
  • Julho de 1976, festa de homenagem ao general Ramalho Eanes, organizada pelo Jornal do Fundão, na pessoa do seu director Paulo Louro, em que a comissão “Adhoc” colaborou, com um enorme cartaz alusivo à ponte de Álvaro, que teve grande impacto na imprensa nacional de então.
  • Em 1976, ainda no 6º governo provisório, uma delegação da comissão foi recebida pelo então Ministro das Obras Públicas, Eng.º Veiga de Oliveira, que prometeu a colocação de um batelão. Disse mesmo que o movimento rodoviário da região não justificava uma ponte, mas, nós não ficámos convencidos, nem vencidos. Endossou-se para o então Secretário de Estado, Coronel Garcia dos Santos, que nunca se dignou receber-nos.
  • Nessa mesma ocasião, estava em Pampilhosa da Serra uma representação da comissão, composta por Raul Lopes, José Bernardo das Neves e Américo Pereira de Almeida, a acompanhar uma equipa da RTP que, durante três dias, colheram depoimentos e filmagens, que vieram a ser passados em dois documentários. Esta equipa foi chefiada por João Facha.
  • De notar e, referir, que a despesa total com a equipa de TV foi totalmente suportada por Raul Lopes, não houve qualquer custo para a comissão. Infelizmente não temos datas nem registo das gravações, mas, isto foi muito, muito importante para os desenvolvimentos futuros.(1)

Esta acção foi conseguida através de um amigo dos irmãos Raul e David Lopes, de nome, Valdemar Silva.

  • Outro marco importante do ano de 1976, aconteceu em Julho quando da festa organizada pelos beirões em homenagem ao General Ramalho Eanes, recém eleito Presidente da Republica e que teve lugar na Quinta das Conchas no Lumiar, em Lisboa. À frente da organização estava o Sr. António Palouro, director do Jornal do Fundão. A comissão conseguiu uma reunião com este senhor, que, amavelmente, nos deu toda a informação para usar o evento como forma de chamar a atenção para o objectivo que perseguíamos. (2)
  • A ponte acabaria por ser inaugurada a 21 de Agosto de 1983. Foram dez anos de lutas contínuas, de alguns desânimos, mas sempre com a fé inabalável de que lutavam por uma causa justa.

 Para terminar nada como uma frase de David Lopes “Lutámos e provámos que tínhamos a razão do nosso lado”.

 

  • (1) Gentilmente cedido por David Lopes
  • (2) David Lopes in “Net Pampilhosense”

 António Barata Lopes

 

0
0
0
s2sdefault