Passaram mais de dois anos, desde o flagelo dos incêndios que assolaram as aldeias serranas. Nalguns casos, destruíram aldeias inteiras, noutras abriram uma ferida que se transformou em úlcera e depois em gangrena.

O caso que hoje ilustramos é o de uma aldeia perdida na Beira, de uma beleza incomparável e com uma vista privilegiada sobre o rio Zêzere, de nome Vale Serrão.

Nesse fim de verão fatídico cerca de 50 casas foram tomadas e destruídas pelo fogo, algumas outras sofreram danos menores. Sobraram ruínas calcinadas, que constituem uma enorme dor de alma para quem com elas tem de conviver diariamente, e para quem ama a sua terra natal.

Foi de tal forma, que, só alguns meses depois, tivemos coragem de pegar na máquina fotográfica e registar para a posteridade as imagens desta autêntica morte anunciada.

Pensamos nós, na altura, ingenuamente, que com esforço, do publico e privado seria uma situação que seria revertida e que passado algum tempo a aldeia voltaria a ter o esplendor e a beleza de outrora.

Infelizmente, o tempo acordou-nos para a realidade, as ruínas que teimosamente resistiram e se quedaram de pé, vão ruindo, constituindo nalguns casos um perigo para os poucos resistentes que ainda por cá vivem. Quase todos já de idade avançada, pela ordem natural da vida, pouco tempo lhes restará. Estamos a caminhar a passos largos para a desertificação.

O que foi feito até agora para reverter esta situação? Praticamente nada, foi apenas reconstruída uma habitação, que embora não sendo na prática, permanente, se enquadra nos critérios definidos pela lei.

Quanto às restantes, não havendo nalguns casos possibilidades dos proprietários para o fazer, noutros havendo estas, mas faltando a vontade, arriscamo-nos a prognosticar que de uma bela aldeia restarão a curto prazo um amontoado de ruínas com algumas habitações à volta, fazendo lembrar a Alemanha depois dos bombardeamentos da segunda grande guerra.

 Será que aprendemos algo com a tragédia? Parece-nos que não!

Apesar de algumas leis para tentar mitigar os riscos de nova catástrofe, como a da limpeza obrigatória de terrenos circundantes às aldeias, os matagais continuam a crescer alegremente, as ervas são queimadas com produtos químicos, secam, ficam abandonadas á sua sorte. Constituem um autêntico rastilho, no caso de uma pequena centelha facilmente se transformarão num incêndio dificilmente controlável.

São inúmeros, os amontoados de lenha, provenientes do corte de árvores queimadas que se encontram quer no centro da aldeia, quer á sua volta. Será que os proprietários dos mesmos, não têm a consciência de que tal comportamento constitui um risco potencial de propagação de incêndios? Levado ao extremo pode até constituir crime por negligência. Da parte de quem de direito,  que medidas foram tomadas para evitar estas negligências e ou violações da lei?

Parece-nos que estamos todos á espera de nova vaga de incêndios para acabar com o que restou das aldeias e transformar todo o território em território selvagem, propício para a caça ou para a exploração dos seus recursos naturais, que até estarão mais facilitados sem a existência de população. Não queremos ser profetas da desgraça, mas estamo-nos todos a pôr novamente a jeito.

Apontar culpados, não é nossa missão nem estamos aqui para o fazer. Em última análise todos o somos em maior ou menor grau. Apenas pretendemos chamar a atenção, e se possível despertar consciências de que estamos a caminhar para uma situação irreversível, se o marasmo, o laxismo e o conformismo continuarem a ser o nosso padrão de comportamento.

Como disse um dia Martin Luther King “Tenho um sonho”, também o temos, só esperamos que ao acordar o mesmo não se tenha tornado num pesadelo.

Vale Serrão, 02 de Maio de 2020

António Barata Lopes

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