"Construtor de violas e guitarras portuguesas para os mais afamados artistas da nossa "praça", António Martins é um perfecionista nesta arte tão especifica e tão artesanal. Vários artistas tocam estes maravilhosos instrumentos construídos com amor e dedicação por este artesão"

António Pereira Martins, nasceu a 03 de Fevereiro de 1956 em Vale Serrão, Pampilhosa da Serra.

Com 15 anos  mudou-se para Lisboa para trabalhar no Casão Militar. Ao fim de mais ou menos um ano entendeu que queria mudar e entrou para o Jornal do Comércio complementando com um part-time no Teatro ABC. Era responsável por levar o jornal para aprovação da edição antes da sua publicação – “vi muitas notícias serem censuradas, chegava lá com uma quantidade considerável de resmas de papel e saía com menos de metade”. À noite, e sempre que havia matiné ao fim de semana, exercia a função de auxiliar de palco, mudando os cenários das peças de teatro a decorrer.

Nesta altura viveu muito o ambiente do espetáculo, toda a dinâmica de bastidores, acompanhou o percurso de grandes artistas como Simone de Oliveira, Vitor Mendes (pai de Fernando Mendes), Nicolau Breyner, entre muitos outros.

Gostava da noite, da diversão por Lisboa e de frequentar casas de Fado. Sendo o Distrito de Coimbra uma referência do Fado que lhe era tão familiar e agora Lisboa, o bichinho do Fado acompanhou-o ao longo da vida - “na minha aldeia não havia festa sem a presença de uma Guitarra Portuguesa para as danças típicas” – Fado Serrano.  

Uns anos mais tarde, já casado, seguiu o rumo da venda porta-a-porta, os chamados “prestaneiros” - inicialmente por conta de outrem e mais tarde por conta própria.

Algum tempo decorrido com o próprio negócio decidiu, alargar os horizontes, abrindo lojas de comércio de mobiliário…e foi no armazém de uma das lojas que aquilo que começou por ser um hobby tornou-se mais sério, vindo a torná-lo Luthier de Guitarra Portuguesa - “para dar início a esta aventura tive de ver muitas Guitarras, cheguei a pedir emprestadas para poder fazer uma “análise” profunda aos pormenores de construção do instrumento. Era uma responsabilidade para mim e uma preocupação para quem emprestava”.  

Quando surgiram as primeiras obras, deu inicio à outra fase desta aventura – colocá-las nas mãos de profissionais para poder aperfeiçoar a arte – “sempre que ia a uma noite de Fados levava uma Guitarra na mala do carro e assim que surgia a oportunidade nos intervalos ou no final das atuações pedia para o guitarrista a experimentar” – desta forma foi conseguindo o feedback de quem percebe da outra parte, o som! Estes guitarristas foram-se tornando amigos com presença assídua na sua vida, contribuindo para a evolução da qualidade dos seus instrumentos. “Neste mundo é muito fácil passar a palavra”, rapidamente se começou a saber da existência do construtor António Martins e a curiosidade começou a surgir por entre os profissionais. 

Quem o conhece define-o como sendo uma pessoa extremamente exigente e perfecionista, características que tornaram a sua construção e seus instrumentos uma referência ao ponto de o desafiarem para a construção da Viola de Fado – “foquei-me sempre apenas na Guitarra Portuguesa, modelos de Coimbra e Lisboa, porque era de facto o meu instrumento favorito, mas fazia todo o sentido construir também a Viola, desafiaram-me e aceitei”.

Não gosta de exercer a sua arte sob pressão e há fases da construção dos instrumentos em que não vale a pena aparecer na carpintaria tal é a concentração necessária – “há alturas em que pode tocar o telefone, podem chamar, podem aparecer ao pé de mim que não estou para ninguém, mas já sabem que assim é, compreendem”. Outra coisa de que não gosta é das luzes da ribalta, desafiado várias vezes a ir a programas de televisão dos vários canais nacionais, recusou sempre – “agradeço muito os convites e entendo como sendo um reconhecimento do meu trabalho, mas gosto de me manter no meu canto, não tenho jeito para essas coisas, prefiro estar no sofá a ver na televisão um instrumento meu a ser dedilhado por um profissional” -  situação que o deixa comovido com orgulho.

Ainda assim “arrastado” pelo genro Hugo Macedo, fotógrafo amador, participou em duas exposições sob o tema “A Construção da Guitarra Portuguesa”, que decorreram no Museu de José Malhoa em Caldas da Rainha e no Convento de S. Miguel das Gaeiras em Óbidos, esperam-se outras em breve.

Esta aventura tomou proporções ao ponto de ver os seus instrumentos nas mãos de profissionais que trabalham com artistas como a Mariza, Camané, Cuca Roseta, Gisela João, Diamantina e por aí fora.

23.05.2020

0
0
0
s2sdefault