CARTA ABERTA Á EDP DISTRIBUIÇÃO, REN E OPERADORAS DE COMUNICAÇÕES

O propósito desta carta é a de denunciar a falta de respeito que existe pelos consumidores de eletricidade e telecomunicações do interior do país.
Sendo assim passo a relatar as condições de quase terceiro mundismo em que vivemos, no interior do país, no Portugal profundo, longe das grandes urbes e neste particular, na região serrana do pinhal interior, concelho e freguesia de Pampilhosa da Serra, lugar de Vale Serrão.
  Centenas de lugares, como esta pequena aldeia existirão de norte a sul do país, este é apenas um caso particular que tomamos como exemplo.


As interrupções de energia eléctrica são frequentes, basta haver uma intensidade de vento acima do habitual, e repare-se não estamos a falar de nenhum ciclone. Mesmo até havendo uma pequena trovoada, o fornecimento de energia eléctrica é logo interrompido. Esta situação existe há muitos anos, desde que nos lembramos, que assim é.

Curiosamente no município de Oleiros, que é contíguo, esta situação não se verifica.
Para além do desconforto que o mesmo acarreta ás populações, há ainda os danos causados aos equipamentos, pelas sobreintensidades geradas por este liga / desliga da energia. Há inúmeros casos de avarias em micro-ondas, arcas congeladoras e frigoríficos, etc. Nós próprios, já fomos vítimas várias vezes.

Para além destas interrupções o valor da voltagem não é constante, registando-se por vezes picos e baixas de tensão acima do recomendável (o valor aceitável ronda os 10%, o que para 230Volt serão no máximo 253Volt e no mínimo 207Volt). Embora toleráveis não são nada benéficos para a boa saúde dos equipamentos. Nem é preciso ser um especialista na matéria para o perceber, basta ver o abaixamento da luminosidade das lâmpadas de incandescência para se ter a percepção do que está a acontecer.

Medições feitas a título particular indicam-nos por vezes tensões da ordem dos 190 a 200Volt. Da frequência que deverá ser de 50 Hz, não temos dados concretos devido aos aparelhos que utilizámos não terem a sensibilidade adequada.

Desde que a rede foi disponibilizada a esta povoação (e seguramente a muitas outras), os poucos investimentos feitos, foram sempre curtos para as necessidades.

O PT (Posto de transformação) dimensionado para quando as habitações tinham uma potência contratada de 1,15KVA, neste momento não é adequado. O mínimo recomendável para uma habitação com duas pessoas neste momento é de 3,45KVA (isto se usar apenas uma máquina de lavar, se usar ao mesmo tempo um ferro eléctrico, já não é suficiente). No verão quando a população aumenta para cerca de dez vezes mais, esta situação é por demais evidente.
Quando estávamos na Presidencia da Direcção da União Progressiva de Vale Serrão, várias vezes chamámos a atenção para este assunto junto das entidades competentes, mas como é hábito, a situação persistiu em continuar.

Penso que foram feitas algumas medições de voltagem por parte da EDP, mas os resultados obtidos, e as condições em que as mesmas foram feitas nunca foram do nosso conhecimento.

Desconheço se as entidades a quem deveriam ter sido comunicadas estas anomalias (no caso á Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, a quem denunciámos a situação) foram informadas pelo fornecedor/inspector.
Os consumidores do interior são portugueses como os do litoral, pagam a energia da mesma forma, será que não têm direito a um serviço com a mesma qualidade? Aliás se analisarmos o preço da energia, pagamos das energias mais caras da Europa (estamos a falar de valor relativo ao poder de compra dos portugueses). Estudos recentes apontam para Portugal ser o oitavo país mais caro da Europa em termos absolutos e o mais caro em termos relativos.
A média europeia aponta para valores médios de 0,2150 € por KWh em Portugal, (1) igual à média europeia, mas tem de levar-se em conta o nível médio de renumerações dos portugueses muito abaixo da média europeia (2). Só existem nove países na EU com salários mais baixos, sendo todos antigos países de leste, mas aqui os preços da electricidade são bem mais baixos.
Isto sem falar das taxas e taxinhas que são aplicadas ao serviço, que acabam por encarecer altamente o serviço com pouca ou nenhuma vantagem para os consumidores. Em suma, ganhamos como pobres e pagamos como ricos.

Há cerca de dois anos dirigimos uma queixa por escrito á EDP, do qual resultou um telefonema feito pelo departamento competente em que se disponibilizavam á montagem de um equipamento para efectuar a medição destes valores. Se os valores fossem normais pagaríamos o serviço, em caso contrário seria por conta da EDP.

Naturalmente não aceitámos a solução, pois desde quando uma entidade se fiscaliza a ela própria, mesmo sendo o departamento de controle de qualidade a fazer o serviço. Que garantias nos ofereciam os equipamentos de medição e a sua posterior interpretação. Tínhamos muitas dúvidas acerca da solução e da metodologia propostas.

Entretanto como passámos por uns percalços de saúde, deixámos este assunto em standby, prometendo a nós mesmos, voltar a ele em momento mais oportuno.


Nas telecomunicações, a situação é ainda pior. Se quiser abrir um anexo de um email, é impossível. O que nos leva a encurtar normalmente, as nossas estadias no lugar.
Sabemos de que é condição “sine qua non” para o desenvolvimento de qualquer região, ter: boas vias de comunicação, infraestruturas eléctricas decentes, comunicações eficientes e rede de água e saneamento funcionais. Sendo assim, não vislumbramos grande futuro para o interior de Portugal, acentuando-se cada vez mais as assimetrias que já existem. Caminhamos alegremente numa longa e lenta agonia, para a desertificação total do interior, que nalgumas aldeias, é já, uma realidade dolorosa.

Quando esta carta foi enviada, ficou-nos algum amargo de boca e desilusão, por nenhuma organização institucional ter esboçado qualquer tipo de reacção, nem ao menos uma reacção de apoio. Nem mesmo dos grupos parlamentares, a quem foram enviados emails, ao cuidado dos deputados eleitos pelo círculo de Coimbra, obtivemos qualquer tipo de resposta. Abstemo-nos de comentar as acções. Fomos desde sempre habituados a que qualquer carta tivesse uma resposta, fosse ela qual fosse, nem que seja apenas por uma questão de cortesia e de educação. Talvez durante os anos em que tivémos de trabalhar como emigrantes no estrangeiro nos tivéssemos habituado mal.

Podemos estar certos de que se não pugnarmos pelos nossos legítimos interesses e direitos, eles por si só, tarde ou nunca se concretizarão. E, só unidos e juntos, poderemos ter, ou almejar ter algum sucesso.

Pensem nisso.

Barata Lopes
Engº Maq. Marinha Mercante

  

 

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