Corria o Mês de Outubro, às nove da manhã fazia já aquele frio próprio do Outono na região serrana, entrou cabisbaixo, com o cabelo espetado e de uma cor acobreada, cara sardenta e afogueada, mãos nos bolsos das calças aos quadrados, sustentadas pelos suspensórios, o menino que pela primeira vez entrava na escola para frequentar a 1ª classe. Nos pés umas alpargatas feitas pelo pai, com tiras de couro e sola de pneu, um luxo, pois tinha andado sempre descalço. Às costas uma sacola de pano com a merenda, uma pedra de ardósia, um pau de giz, um caderno, um lápis e uma borracha.

Passou o portão de ferro forjado com vontade de voltar atrás, mas o rosto austero da mãe que o espiava ao longe fê-lo imediatamente mudar de ideias e seguir em frente até ao alpendre onde se situava a porta de entrada na sala de aulas.

Junto ao mesmo já estavam cerca de duas dezenas de jovens, todos do sexo masculino, das mais diversas idades, pois esta escola de aldeia ministrava todas as classes do ensino primário. O ambiente que reinava era de alegria, com os mais velhos já veteranos e mais á vontade em brincadeiras próprias da idade e amedrontando os que pela primeira vez se viam naquelas andanças.

O miúdo avançou receoso, e ainda pior ficou quando um dos mais velhos lhe disse “ Estás lixado Tonho, vai ser reguada até não teres mãos, se não souberes a tabuada dos nove no fim deste mês”. Encolheu-se ainda mais e a dor que já tinha na barriga aumentou ainda mais (Sabia lá ele o que era aquilo da tabuada).

A professora surgiu no caminho pedregoso que conduzia é escola que se situava no topo da aldeia. Jovem ainda, pouco mais de vinte anos, era a primeira vez que leccionava e logo naquele fim de mundo, onde para lá chegar, viera de camioneta de Coimbra até á Pampilhosa da Serra e depois sete quilómetros montada num burro, por uma estrada de carro de bois onde o calor e a poeira reinavam. A casa que lhe foi cedida toda de pedra, para os padrões da aldeia até era razoável, mas para quem sempre viveu numa grande urbe era miserável. Quando perguntou onde era a casa de banho e o anfitrião lhe respondeu “Senhora Professora é por aí debaixo de uma parede ou atrás de uma moita” ela quase desmaiou e pensou com os seus botões “Onde é que eu me vim meter…mais-valia ter seguido os conselhos da minha mãe e ser enfermeira como ela”.

Subiu o caminho aos tropeções com uns sapatos de meio salto elegantes mas impróprios para esta vereda, amaldiçoando o que lhe tinha calhado em sorte.

Entrou apressada no recreio da escola, de terra batida mas liso e sem pedras, olhou a escola igual a tantas outras de um só piso com grandes janelas e um alpendre onde os alunos se abrigavam em caso de intempérie. Escola pintada de branco igual a todas as outras construídas pelo Estado Novo.

Transpôs o recreio em meia dúzia de passos e rapidamente alcançou o alpendre de entrada onde mais uma vez se sentiu desconfortável com os olhares que lhe lançavam os mais velhos “franganotes” já na puberdade que a miravam de alto a baixo. Afinal tinha apenas mais meia dúzia de anos que alguns deles e nalguns deles começava a natureza a funcionar em relação ao sexo oposto. Pensou para si “Estou bem arranjada com estes franganotes”.

Mas fazendo das fraquezas forças, com voz de comando ordenou: “A partir de hoje quando chegar quero vê-los todos formados, os mais novos na frente e os mais velhos atrás.

Ele bem quis passar despercebido, mas a professora dirigiu-se a ele com um olhar que o fez estremecer dos pés á cabeça “Tu aqui para a frente, como te chamas? Ele a medo respondeu num sussurro, Tonho. Tonho??? Isso é nome de gente…a partir de hoje é António…não quero cá diminutivos (pensou ele, que raio significará diminutivo).

A professora dirigiu-se a porta de entrada, girou a enorme chave na fechadura e a porta abriu-se dando lugar a uma sala com chão de madeira de pinho, cerca de quinze carteiras duplas com tampo e banco corridos, de cor escura. Ao fundo a secretária da professora com um grande painel negro de ardósia ao lado que ocupava quase toda a parede do fundo. Por cima do quadro duas figuras com ar austero e sinistro, que soube mais tarde serem o Presidente da Republica e o Presidente do Concelho de Ministros. Ao centro e no meio delas um grande cruxifixo.

Nas paredes laterais vários Mapas de Portugal Continental, Províncias Ultramarinas, Regiões Insulares e outros com desenhos do corpo humano com as miudezas á vista. Parecido com aquilo só tinha visto quando os pais mataram o porco, e olha que os desenhos eram muito parecidos.

No canto oposto ao da secretária da professora, estava um armário escuro, com duas portas de vidro, onde se viam diversos objectos de madeira de formas estranhas, mas que se via que tinham um propósito específico, devido a diversidade das suas formas e acabamento polido.

Ele entrou ainda com mais medo, a dor na barriga aumentou exponencialmente, e sentou-se logo na primeira carteira ao fundo. Todos tentavam ficar o mais longe possível da professora, como se esta fosse um bicho papão.

A professora ocupou o seu lugar na secretária, arrumou metodicamente os livros, uma vara de madeira comprida e redonda e uma tábua de madeira curta e fina que mais tarde se tornaria num “afago” de mãos muito desagradável e mais frequente do que seria desejável.

Meninos vociferou a professora “ Já para as carteiras da frente… eu não mordo”. Logo os mais velhos se adiantaram, com a vã esperança de poder “espiar” as pernas da professora, mas esta adivinhando os seus intentos, logo os travou dizendo “ os da 1ª classe para a frente”.

Lá se acomodou na primeira carteira, fazia frio e os assentos de madeira contribuíam para o desconforto e pouco á vontade com que se sentia.

A professora iniciou as apresentações dizendo que se chamava Malvina (Pensou ele - que raio de nome … deve ser muito má), era de Coimbra e era a primeira que dava aulas em Vale Serrão (ou noutro sítio…mas não vou dizer). Perguntou a todos os nomes, o que faziam os pais, a idade, a classe em que estavam.

Um dos mais velhos da 4ª classe, querendo fazer de “engraçado”, o que lhe valeu uma valente ponteirada na cabeça, quando a professora lhe perguntou o nome disse chamar-se “Agosto”. A professora admirada, perguntou - Tens a certeza? A professora não disse que não queria diminutivos, lá em casa chamam-me Agostinho.

A manhã passou tranquila, o frio da barriga foi esmorecendo lentamente. Ao meio dia foi feita uma pausa, que serviu para rapidamente engolir o parco farnel e o tempo restante para brincadeira no recreio de escola. No pátio existia uma roda gigante com uma manivela ligada a um mecanismo que arfava quando era accionado e do qual brotava agua por um orifício. Vim a saber por explicação da professora que se tratava de uma bomba alternativa que retirava água de um poço existente por baixo da mesma. Consistia sempre numa das nossas brincadeiras montar na roda enquanto um dos outros a accionava.

O resto da tarde decorreu de forma serena com o início da aprendizagem do a,e,i,o,u para os da 1ª classe e a professora a tentar perceber a que nível se encontravam os das outras classes. Algumas das respostas mereceram algumas reprimendas e ponteiradas na cabeça de alguns a quem a capacidade de aprendizagem menos favorecera.

Ao fim do dia quando regressei a casa apoderou-se de mim uma sensação de liberdade e de felicidade, estava livre de novo. Quando fui questionado pela minha mãe, se tinha gostado da escola, ao que prontamente respondi que não queria ir mais, ouvi da parte dela uma valente reprimenda, se queria ser burro como o pai e a mãe ou se queria ser como Sr. Dr. Mendonça da Vila a quem todos recorriam em caso de dificuldade. Apesar da parca idade consegui pesar os prós e os contras e de longe preferia a vida do Dr. Mendonça que andava a cavalo e só dava ordens. Eu apesar de pequeno já estava farto de calcorrear montes e vales a guardar gado, a roçar mato, a ajudar nos trabalhos agrícolas. A partir daí tomei como missão aprender cada vez mais para não ter de me sujeitar ás provações a que via os meus pais e demais conterrâneos serem submetidos.

Os anos foram passando até ter de ir fazer o exame da 4ª classe que na altura se fazia na Vila. Como as dificuldades eram muitas lá em casa, surgiu o problema do que calçar para fazer o exame uma vez que só possuía alpargatas e não poderia de alguma forma apresentar-me a exame sem sapatos, seria vergonhoso.

O meu pai com o espírito práctico que sempre teve resolveu prontamente o problema. Levas os sapatos da tua irmã, rosnou ele, e não se discute mais está o problema resolvido. A minha mãe ainda tentou contrapor dizendo que precisavam ser engraxados – Não há problema como são pretos passam-se na “ferrugem do caniço” e ficam engraxados.

Lá fui eu a contragosto com os sapatos da minha irmã, na mão até á entrada da Vila e só depois de entrar no empedrado os calcei. Tudo teria corrido bem, se os mesmos não possuíssem uma pequena flor num dos lados e um dos examinandos do alto da sua crueldade não tivesse observado – Olha aquele gajo tem uns sapatos de mulher!

Fiquei lívido de raiva, mas não perdi o sangue frio e num tom ameaçador o admoestei – Caluda, senão levas na tromba lá fora!!!

Lá consegui ser aprovado com distinção, o que me valeu um valente beijo na face rosada, da minha jovem professora, a qual pela sua beleza e jovialidade constituía já uma paixão platónica que me perturbava as noites da minha puberdade já em ebulição.

É com uma doce recordação que guardo a memória dos anos passados nesta bonita escola, dos companheiros, dos ensinamentos que me foram transmitidos pela “doce” Malvina que foram os alicerces da minha formação como homem e como cidadão.

A Escola lá continua, agora cumprindo outras funções, uma vez que não há alunos. Após obras de restauração e adaptação funciona como Casa de Convívo em Vale Serrão.

 

Nota: Como não frequentei a Escola em Vale Serrão parte desta história é ficção, mas as histórias são verdadeiras, foram-me sendo transmitidas por várias gerações de quem frequentou esta Escola. Pretende-se que sirva como ponto de partida para que outros contem histórias relativas ás suas vivências na frequência das Escolas das suas aldeias.

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