"Abro os olhos. Escuridão opaca. Ouço, ainda, as vozes que se atropelam, se fundem, se sobrepõem. Confundem-se com o bater da roupa na pedra de xisto, um bater desencontrado nas pedras"

Lavadouros de Xisto: Ritmo

As mulheres baixam-se, cada uma junto ao seu lavadouro. Uns, criados pelas próprias lavadeiras, aproveitando a mesma pedra de xisto ao longo de décadas. Outros, improvisados naquele momento.

Mergulham na água corrente as peças de roupa, uma por uma. Esfregam com sabão azul, sabão cor-de-rosa ou OMO. Esfregam cada peça de roupa contra a pedra de xisto – lavadouro - uma e outra vez.

Ainda hoje revejo estes gestos e momentos acompanhados de um ruído de fundo – a água da ribeira que se precipita no açude. Oiço as vozes das lavadeiras. Falam tão alto! Partilham as novidades da aldeia, gargalhadas, gritos, cantigas. Naquela ribeira, partilhavam-se os sorrisos, as tristezas, as lágrimas, a vida.

Espreito a criança que eu era, a brincar à beira da ribeira de Meãs, Pampilhosa-da-Serra, com muitas das outras crianças da aldeia, alheias aos avisos das mães:

- Olha que te molhas!

Estavam no seu pequeno mundo imaginário, de faz de conta, construindo presas e levadas. As conversas, os gritos, não contagiam as crianças.

Atiram pedrinhas para a água… Tantas ondas!

Atravessavam uma pequena ponte de madeira que ligava o caminho de terra que vinha da aldeia à margem sob a encosta da serra. Algumas crianças ficam no lado de cá.  Imitam a mãe, ajudam a lavar pequenas peças de roupa no seu próprio lavadouro improvisado.

Abro os olhos. Escuridão opaca. Ouço, ainda, as vozes que se atropelam, se fundem, se sobrepõem. Confundem-se com o bater da roupa na pedra de xisto, um bater desencontrado nas pedras. Os ritmos entrelaçados alastram-se pelo espaço.  O som das batidas nos lavadouros atravessa a ribeira, sobe a encosta íngreme e verde, mistura-se com o chilrear dos passarinhos, com a água da ribeira a correr, com o choro, as gargalhadas, as conversas, os gritos das crianças. De repente, uma criança chama a mãe e esse som sobrepõe-se… volta o som do ritmo do bater da roupa nos lavadouros de xisto, das vozes femininas, como o coração da aldeia.

Havia uma pressa inconsciente de estender os lençóis brancos de linho, estopa ou algodão, ainda ensaboados. Cobriam carquejas, giestas, erva, silvas e penedos, aproveitando a luz do Sol para corar e branquear.

O sol já vai alto. Há que apressar - molhar, ensaboar, esfregar, enxaguar e torcer, num ciclo que se repetia uma e outra vez, durante horas. Ajudavam-se. Torcer era uma das tarefas mais árduas, uma vez que requeria força, a qual se conseguia recorrendo à entreajuda. Cada duas lavadeiras torciam um mesmo lençol, pegando cada uma numa ponta e torciam, torciam, até não deitar nem mais uma gota de água. Alguidar vazio. Alguidar cheio. Ritmo.

Fechos os olhos. Abro os olhos. Vislumbro os troncos das árvores que se erguem a partir da ribeira, encosta acima – almas ao encontro do céu.

Vejo as mulheres com longas saias de fioco, quase até à água, pés descalços ou com botas de borracha, dentro de água. Acartam carradas de roupa à cabeça. Ao final do dia, as crianças agarradas à saia comprida da mãe, voltam para casa.

Imagens de outros tempos – a ribeira, os lavadouros, ritmo. Revejo com o meu coração.

Natalia Sebastião Barata

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